
A fotografia mais recente da opinião pública em Campo Grande não deixa margem para dúvida. A administração de Adriane Lopes atravessa um dos momentos mais delicados da história política da Capital, com rejeição massiva e desgaste que parece já não encontrar freio. O dado de que 80%dos moradores classificam a gestão como ruim ou péssima não é apenas um número. É um retrato de ruptura entre governo e população.
A pesquisa do Instituto Ranking Brasil expõe um cenário de desgaste contínuo, acelerado e irreversível. Em poucos meses, a avaliação negativa saltou dez pontos percentuais, consolidando uma curva de queda que se acentua desde o ano passado. O que antes era alerta agora se tornou diagnóstico consolidado de reprovação.
A aprovação praticamente desapareceu. Apenas 4%consideram a gestão boa ou ótima, índice que despenca em comparação aos 24% registrados um ano atrás. O dado revela não apenas perda de apoio, mas abandono político de uma base que já foi mais tolerante e hoje demonstra impaciência.
No quadro geral, 90% dos campo-grandenses desaprovam a prefeita. Trata-se de um patamar extremo, raro mesmo em administrações sob forte pressão. Não se trata mais de desgaste natural de governo, mas de um colapso de credibilidade que se espalha por todos os setores.
Parte significativa desse cenário se explica pela sucessão de escândalos envolvendo integrantes do primeiro escalão. Acusações graves de assédio, violência e até estupro colocaram a gestão sob um constrangimento público profundo. Mais grave do que os fatos em si foi a condução política dos episódios, marcada por silêncio e demora em afastamentos.
A permanência inicial de investigados em cargos estratégicos transmitiu à população a sensação de tolerância com condutas inaceitáveis. Em uma cidade já pressionada por problemas básicos, esse tipo de crise moral amplia ainda mais o distanciamento entre poder público e sociedade.
Enquanto isso, a realidade urbana segue deteriorada. Ruas esburacadas deixaram de ser apenas um incômodo e passaram a representar risco à vida. Acidentes graves e até mortes passaram a compor o cotidiano de uma cidade abandonada à própria sorte.
Na saúde, o quadro é ainda mais sensível. A falta de médicos, exames e medicamentos transformou o acesso ao atendimento em uma via de sofrimento prolongado. A promessa do hospital municipal, que poderia amenizar parte do colapso, permanece apenas como lembrança de campanha.
A política tributária adotada pela gestão agravou o descontentamento. O aumento expressivo do IPTU e da taxa do lixo atingiu diretamente o orçamento das famílias. Ao mesmo tempo, benefícios concedidos à própria estrutura de poder reforçaram a desigualdade no tratamento entre governo e população.
O contraste entre o sacrifício imposto aos cidadãos e os reajustes salariais da cúpula administrativa intensifica a injustiça. Servidores seguem sem recomposição inflacionária enquanto a alta cúpula foi contemplada com aumentos invejáveis, o que aprofunda o desgaste político.
A composição da equipe também passou a ser questionada. Nomeações com vínculos pessoais e escolhas técnicas contestadas alimentam a fragilidade administrativa. A ausência de critérios na formação do governo só reforça a ideia de improviso em áreas que exigem qualificação.
Os próprios dados da pesquisa mostram que a saúde lidera a lista de problemas apontados pela população, seguida pela falta de médicos, escândalos e infraestrutura precária. Trata-se de um conjunto de falhas que atinge diretamente a vida cotidiana e que não pode ser relativizado.
Campo Grande vive hoje um momento de exaustão. A gestão perdeu a mão, perdeu apoio e perdeu a confiança. E, quando uma administração atinge esse nível de rejeição, o desafio deixa de ser apenas governar e passa a ser reconstruir o mínimo de legitimidade. Sem isso, o tempo restante de mandato tende a ser não apenas difícil, mas politicamente insustentável.