
Enquanto a própria remuneração disparou 50% e os salários dos secretários municipais explodiram impressionantes 119%, a prefeita Adriane Lopes decidiu oferecer apenas 4,39% de reajuste aos servidores concursados de Campo Grande. O contraste é tão gritante que dispensa qualquer esforço de interpretação. Para quem está no topo da administração, houve generosidade. Para quem mantém a máquina pública funcionando diariamente, sobrou migalha.
O anúncio escancara uma das maiores contradições da atual gestão. Desde que assumiu a prefeitura em abril de 2022, Adriane não concedeu qualquer reposição salarial aos servidores municipais. Agora, após quatro anos de perdas acumuladas, apresenta um índice que sequer cobre a inflação do último período e ignora completamente a defasagem de quase 20% acumulada desde o início do seu mandato.
A situação se torna ainda mais revoltante quando se observa quem ficou de fora. Dos cerca de 30 mil servidores municipais, apenas 17,4 mil efetivos serão contemplados. Os trabalhadores temporários continuarão com os salários congelados pelo quarto ano consecutivo. Na prática, a administração criou uma divisão entre servidores de primeira e segunda categoria dentro da própria prefeitura.
A exclusão dos aposentados e pensionistas aprofunda ainda mais a injustiça. São mais de 4,1 mil pessoas que dedicaram décadas de suas vidas ao serviço público e que agora assistem à corrosão de seus rendimentos sem qualquer compensação. Depois de uma vida inteira de trabalho, recebem como resposta o abandono.
O discurso da falta de recursos também não convence. Afinal, a própria prefeita garantiu diversas vezes que recebeu uma prefeitura equilibrada financeiramente e que as contas estavam sob controle. Se havia dinheiro para reajustar em 50% o próprio salário e em mais de 119% os vencimentos dos secretários, é difícil explicar por que não havia recursos para garantir uma reposição digna aos servidores.
Os números são implacáveis. O salário da prefeita saltou de R$ 21,2 mil para quase R$ 32 mil em apenas dois anos. Já os secretários municipais passaram de pouco mais de R$ 11,6 mil para R$ 25,5 mil. Mesmo considerando o desconto temporário do decreto de contingenciamento, o aumento efetivo continua muito acima de qualquer índice inflacionário registrado no período.
Enquanto isso, os servidores acumulam perdas. O IPCA-E desde abril de 2022 chega a 19,9%. O reajuste proposto de 4,39% cobre apenas uma pequena fração dessa defasagem. Em termos práticos, significa redução do poder de compra, dificuldade para manter as despesas básicas e aumento da distância entre a realidade dos trabalhadores e a dos ocupantes dos cargos de comando.
A comparação com o salário mínimo também evidencia o tamanho da discrepância. Desde o início do atual governo federal, o mínimo nacional acumulou aumento de 33,74%. Mesmo quem costuma criticar Brasília precisa admitir que a correção aplicada aos trabalhadores brasileiros foi quase oito vezes superior à oferecida agora pela administração municipal de Campo Grande.
Durante décadas, a reposição inflacionária foi tratada como obrigação básica de qualquer gestor comprometido com o funcionalismo. Houve prefeitos que, além de recompor perdas, ainda concederam ganhos reais. Na gestão Adriane Lopes, porém, a reposição virou exceção e ainda veio acompanhada de exclusões, restrições e cortes.
O resultado é um cenário de indignação crescente entre servidores ativos, aposentados e temporários. Para a prefeita, quando o assunto envolve o alto escalão, os cofres estão abertos. Quando envolve quem atende a população nas escolas, unidades de saúde, centros administrativos e serviços públicos, a resposta é contenção, atraso e desprezo. Em uma cidade que enfrenta graves problemas na saúde, na infraestrutura e na prestação de serviços, a política salarial adotada por Adriane Lopes reforça a percepção de que o sacrifício é sempre exigido dos mesmos, enquanto os privilégios continuam reservados aos que estão no poder.