
O anúncio de paralisação dos professores da Rede Municipal de Ensino expõe mais uma vez uma das maiores contradições da gestão Adriane Lopes. Enquanto a prefeita garantiu reajustes generosos para si mesma e para integrantes do alto escalão da administração municipal, os profissionais responsáveis pela formação de mais de 112 mil alunos seguem aguardando o cumprimento de uma promessa feita durante a campanha eleitoral.
A decisão dos educadores de cruzar os braços por 24 horas não surgiu por acaso. Ela é resultado do desgaste acumulado por anos de promessas não cumpridas e, principalmente, da frustração diante da negativa da prefeita Adriane Lopes em aplicar o reajuste de 5,4% previsto pela política do Piso Nacional do Magistério para a jornada de 20 horas.
A mobilização aprovada em assembleia demonstra que a categoria chegou ao limite. Depois de reuniões, negociações e tentativas de diálogo, os professores concluíram que apenas uma demonstração pública de insatisfação seria capaz de chamar a atenção do Executivo Municipal para uma pauta que deveria ser tratada como prioridade absoluta.
A própria Adriane Lopes assumiu compromisso público com os educadores durante a campanha pela reeleição. À época, o discurso de valorização da educação e de respeito aos profissionais da rede municipal ajudou a conquistar votos e confiança. Agora, diante da cobrança legítima da categoria, a promessa parece ter sido deixada para trás.
O sentimento de indignação cresce porque a realidade demonstra que dinheiro para reajustes existe quando o assunto envolve a cúpula da administração. A própria prefeita foi beneficiada por um aumento expressivo em seus vencimentos após a reeleição. Secretários, procuradores e integrantes do primeiro escalão também foram contemplados por reajustes e reestruturações salariais que impactaram significativamente os cofres públicos.
Já para os professores, que enfrentam salas lotadas, desafios pedagógicos crescentes e a responsabilidade de preparar o futuro da cidade, a resposta tem sido a postergação. O que se vê é uma inversão de prioridades que provoca revolta não apenas entre os educadores, mas também entre milhares de famílias que dependem da qualidade do ensino público.
A paralisação deixa claro que a discussão vai muito além dos 5,4%. Ela questiona a credibilidade de uma gestora que fez promessa de campanha e, depois de eleita, simplesmente não cumpriu.
O episódio também lança luz sobre uma realidade que se repete há anos em Campo Grande. Prefeitos entram e saem prometendo cumprir integralmente a Lei Municipal do Piso do Magistério, mas o compromisso acaba sendo constantemente adiado. A diferença é que agora a cobrança recai diretamente sobre uma prefeita que garantiu aos profissionais da educação que faria diferente.
Enquanto isso, os maiores prejudicados são os estudantes. Mais de 112 mil alunos ficarão sem aulas em razão de um impasse que poderia ter sido evitado com planejamento, diálogo efetivo e respeito aos compromissos assumidos.
A manifestação marcada para a próxima sexta-feira representa um recado claro ao Paço Municipal. Os professores não estão pedindo privilégios. Estão exigindo o cumprimento de uma promessa e o reconhecimento de um direito. Em uma gestão que encontrou espaço para aumentar salários do topo da estrutura administrativa, a dificuldade em garantir a reposição dos profissionais da educação soa como uma escolha política que a população certamente saberá julgar.