
A determinação do Conselho Nacional de Justiça para que magistrados de Mato Grosso do Sul devolvam valores recebidos indevidamente expõe uma realidade que há anos provoca indignação na sociedade brasileira. Enquanto milhões de trabalhadores precisam justificar cada centavo recebido em seus contracheques, integrantes de uma das carreiras mais bem remuneradas do país se veem obrigados a restituir verbas pagas de forma irregular após auditoria do próprio CNJ.
A decisão do corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, não surgiu por acaso. Ela é resultado de uma revisão nacional sobre os chamados penduricalhos que, ao longo dos anos, transformaram a remuneração de parte do Judiciário em um tema polêmico. Desta vez, a auditoria identificou irregularidades nos pagamentos efetuados pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul nos meses de março e abril deste ano.
Segundo o CNJ, houve pagamento em duplicidade do adicional de um terço constitucional relacionado às férias indenizatórias, além de problemas envolvendo a rubrica denominada indenização de cargo. Em outras palavras, benefícios que deveriam seguir critérios rigorosos acabaram gerando pagamentos acima do devido.
O mais preocupante não é apenas o erro em si, mas o fato de que ele ocorreu justamente em uma estrutura que tem entre suas funções fiscalizar o cumprimento das leis e garantir a correta aplicação dos recursos públicos. No entanto, a irregularidade surge dentro de um dos poderes responsáveis por exigir rigor dos demais cidadãos e, com isso, a repercussão naturalmente ganha uma dimensão ainda maior.
A decisão do CNJ deixa claro que o Tribunal de Justiça corrigiu a metodologia utilizada e recalculou os valores individualmente. Resta agora a etapa mais sensível de todo o processo, que é a devolução do dinheiro pago a maior. É o mínimo que se espera quando recursos públicos são utilizados de forma indevida, independentemente de quem seja o beneficiário.
A situação também reacende um debate antigo sobre a falta de transparência em torno dos chamados penduricalhos. A sociedade foi informada da existência dos pagamentos irregulares, mas não sabe quanto foi pago, quantos magistrados foram alcançados pela auditoria nem qual será o valor devolvido aos cofres públicos.
A ausência desses números alimenta a desconfiança. Afinal, se o pagamento foi identificado como irregular e a devolução determinada, o interesse público exige que os valores sejam conhecidos. Transparência não pode ser seletiva nem parcial. Deve ser integral, especialmente quando envolve dinheiro público.
Nos últimos anos, o tema dos supersalários e das verbas indenizatórias ganhou destaque nacional justamente porque muitos desses benefícios acabam funcionando como mecanismos capazes de elevar significativamente a remuneração de agentes públicos acima dos limites originalmente previstos pela Constituição Federal. Por isso, cada nova descoberta de pagamentos indevidos reforça a necessidade de fiscalização.
O episódio em Mato Grosso do Sul mostra que os órgãos de controle são fundamentais para impedir que distorções se perpetuem. Se não houvesse auditoria, os pagamentos poderiam passar despercebidos e permanecer incorporados à rotina administrativa sem qualquer correção.
A devolução dos valores é uma medida necessária, mas não suficiente. O verdadeiro desafio é impedir que situações semelhantes voltem a ocorrer. Em um país onde professores, policiais, profissionais da saúde e servidores em geral lutam por reajustes modestos, qualquer privilégio indevido pago com dinheiro público representa um insulto ao contribuinte que sustenta toda a máquina com seus impostos.