
A tentativa de transferir para a Câmara Municipal a responsabilidade pela crise do transporte coletivo de Campo Grande esbarra em um fato incontestável. Foi justamente o Legislativo quem teve coragem de enfrentar um dos maiores problemas da cidade, investigar o Consórcio Guaicurus de forma séria e produzir um relatório que hoje serve de base para as medidas anunciadas pela própria Prefeitura.
Muito antes da intervenção entrar no discurso oficial do Executivo, a Comissão Parlamentar de Inquérito do Transporte já havia escancarado aquilo que milhões de passageiros sentem diariamente nos pontos de ônibus. Veículos velhos, atrasos constantes, viagens suprimidas, falta de manutenção e um sistema que há anos acumula reclamações sem apresentar melhorias compatíveis com os recursos recebidos.
O relatório final da CPI não surgiu de achismos nem de disputas políticas. Foi construído após meses de oitivas, análise de documentos, auditorias e depoimentos. Os vereadores ouviram usuários, técnicos, empresários e representantes do poder público. O resultado foi um documento robusto que apontou falhas graves na execução do contrato e recomendou providências concretas para proteger a população.
Os fatos mostram que a CPI acertou. A comissão criada posteriormente pela própria Prefeitura chegou praticamente às mesmas conclusões apresentadas pelo Legislativo. As mais de 15 mil ocorrências de descumprimento de horários, o envelhecimento da frota, o aumento dos índices de reprovação nas inspeções de segurança e a deterioração do serviço apenas confirmaram aquilo que os vereadores já haviam denunciado.
Mais do que apontar problemas, a Câmara indicou caminhos. Entre as recomendações estavam a substituição dos ônibus fora da idade contratual, a responsabilização dos dirigentes do consórcio e a intervenção no sistema para garantir transparência e fiscalização. Hoje, quando a Prefeitura anuncia exatamente essa possibilidade, fica evidente que o trabalho realizado pelos vereadores foi sério, técnico e necessário.
A atuação da CPI teve reflexos que ultrapassaram os limites da Câmara Municipal. O relatório serviu de base para a abertura de inquérito pelo Ministério Público Estadual, que passou a investigar uma série de irregularidades envolvendo a prestação do serviço.
Outro ponto que não pode ser ignorado é que a Câmara, em diversos momentos, colaborou com a administração municipal na tentativa de encontrar soluções para o transporte coletivo. Atendendo pedidos da própria prefeita Adriane Lopes, os vereadores aprovaram medidas destinadas a garantir recursos e auxiliar na manutenção do sistema. Houve disposição para construir alternativas e evitar o colapso do serviço.
Por isso causa estranheza que agora se tente atribuir ao Legislativo uma responsabilidade que não lhe pertence. A mesma gestão que buscou apoio da Câmara para aprovar medidas relacionadas ao transporte posteriormente adotou posicionamentos que dificultaram a execução de algumas soluções discutidas anteriormente. Não é razoável pedir apoio em um momento e depois tentar transformar os parceiros em culpados pela crise.
A fala da vereadora Ana Portela reforça uma percepção compartilhada por muitos usuários. A intervenção pode ser um passo importante, mas está longe de representar a solução definitiva. O diagnóstico já foi feito, os problemas já foram identificados e as irregularidades já foram apontadas. O desafio agora é transformar relatórios e discursos em ações concretas que devolvam dignidade aos passageiros.
A verdade é simples. Se hoje existe base técnica para uma intervenção, se existem investigações em andamento e se a situação do Consórcio Guaicurus está sendo enfrentada com maior rigor, isso passa diretamente pelo trabalho realizado pela Câmara Municipal. O Legislativo fez sua parte ao investigar, fiscalizar e apresentar soluções. Agora cabe ao Executivo assumir suas responsabilidades e agir com a mesma firmeza que os vereadores demonstraram ao expor um problema que durante anos foi empurrado para debaixo do tapete.