
Enquanto a arrecadação da Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública (Cosip) enche os cofres da prefeitura todos os meses, as ruas de Campo Grande seguem abandonadas, mal iluminadas e perigosas. O resultado não poderia ser outro, além de dor, prejuízo e revolta.
Vera Maria Miranda da Silva Telles, de 70 anos, caminhava por um trajeto que fazia parte de sua rotina quando encontrou o que muitos moradores já conhecem bem. A combinação entre buracos e falta de iluminação. O tropeço veio, a queda foi inevitável e o impacto resultou em uma fratura grave no joelho esquerdo.
O episódio ocorreu na Rua João Cadete, no Bairro Maria Aparecida Pedrossian. Um endereço que agora simboliza um problema que se espalha por toda a cidade. Não se trata de um caso isolado, mas de um retrato fiel de uma Capital que arrecada como se fosse eficiente, mas entrega como se estivesse à deriva.
A cena após a queda é ainda mais chocante. A idosa permaneceu no chão, sem conseguir se levantar, vulnerável e exposta ao risco de ser atropelada. A escuridão era tanta que moradores tiveram dificuldade até para identificar de onde vinham os pedidos de socorro.
A lâmpada do local, segundo relatos, estava queimada há cerca de 20 dias. Vinte dias de abandono em uma via urbana. Vinte dias de descaso em um serviço essencial. Vinte dias suficientes para transformar uma rua comum em um cenário de risco iminente.
E tudo isso acontece enquanto a prefeitura arrecada, em média, R$ 17 milhões por mês com a Cosip. Um valor que deveria garantir manutenção, expansão e qualidade na iluminação pública. Mas, na prática, o que se vê é o contrário. A conta chega para o cidadão, mas o serviço não chega para a rua.
A consequência dessa negligência é grave. Vera Maria precisou passar por cirurgia, enfrentar um processo doloroso de reabilitação e arcar com uma série de despesas médicas. Atendimento emergencial, exames, consultas, medicamentos e fisioterapia passaram a fazer parte de uma rotina que antes era simples e independente.
A ação judicial que pede indenização de R$ 100 mil escancara o tamanho do problema. Não se trata apenas de compensar a vítima, mas de evidenciar a falha do poder público. O dano é evidente, a omissão é clara e o nexo entre ambos é direto.
A própria argumentação jurídica aponta o óbvio que a gestão parece não enxergar. Se a iluminação estivesse funcionando e a via estivesse em condições adequadas, a queda não teria acontecido. Não há complexidade nisso. Há apenas falta de gestão.
O cenário se torna ainda mais grave quando se observa o histórico recente envolvendo o setor de iluminação pública. A operação Apagar das Luzes, conduzida pelo Ministério Público, revelou indícios de fraudes, contratos suspeitos e um rombo que ultrapassa R$ 62 milhões. Um escândalo que ajuda a explicar por que falta luz onde deveria sobrar eficiência.
Enquanto isso, o morador de Campo Grande segue pagando caro. Já esteve entre os que mais desembolsam por iluminação pública no país, mas continua caminhando no escuro. A equação é simples e revoltante: o dinheiro entra, mas o serviço não aparece.
O que aconteceu com Vera Maria é o retrato cruel de uma cidade onde o cidadão paga caro por um serviço que simplesmente não funciona. Não foi azar, foi consequência de uma engrenagem que arrecada milhões e entrega abandono. Enquanto a gestão fecha os olhos para o básico, a população segue exposta, tropeçando no descaso e pagando, com o próprio corpo, a conta de uma administração que falha onde não poderia falhar.