
Mais um capítulo se soma à novela que envolve o Almoxarifado e a Farmácia da rede pública, agora com uma trama que mistura mudança de endereço, discurso de economia e números que simplesmente não fecham. O enredo, que já vinha causando estranheza, ganha contornos ainda mais revoltantes quando se observa quem está no centro das decisões e como elas vêm sendo tomadas.
Corre à boca pequena que a gestão estuda transferir o Almoxarifado e a Farmácia para fora da área urbana, na saída para Cuiabá. Mudanças administrativas, por si só, não são um problema. O motivo seria o de sempre: reorganização, modernização e, sobretudo, diminuição de custos. Até aqui, tudo dentro do roteiro clássico da burocracia pública.
O problema começa quando se analisa o imóvel escolhido para abrigar o novo espaço. O barracão, localizado no Jardim Colômbia, estava anunciado para locação por R$ 95 mil mensais. Valor alto, mas ainda assim compatível com grandes estruturas logísticas. A surpresa vem logo em seguida, quando o mesmo imóvel passa a custar R$ 112 mil por mês, um salto nada discreto de R$ 17 mil.
É nesse ponto que surge o nome de Fausto Azevedo Tales, gerente do Almoxarifado e da Farmácia, apontado como amigo do locatário do imóvel. A tal “economia” anunciada vira piada de mau gosto quando o aluguel sofre uma inflação relâmpago justamente no momento em que a negociação avança dentro da administração.
Agora, todo mundo quer saber é o que exatamente aconteceu nessa negociação para justificar um aumento tão expressivo? Não se trata de centavos nem de reajuste contratual comum de mercado, mas de um acréscimo robusto, difícil de explicar em qualquer planilha minimamente séria.
As más línguas ainda acrescentam um tempero extra à história ao apontarem que o locatário seria amigo tanto de Fausto Azevedo Tales quanto do marido da prefeita Adriane Lopes, o deputado estadual Lídio Lopes. Coincidência? Pode até ser.Mas, no mínimo, trata-se de uma coincidência curiosamente conveniente, especialmente quando envolve dinheiro público e decisões estratégicas na área da saúde.
Enquanto isso, a realidade nas unidades de saúde é cruel e conhecida da população. Falta remédio. Falta insumo. Falta tudo. Ainda assim, aparentemente, sobra verba — e com folga — para bancar um aluguel mais caro, em um espaço menor, pior localizado e muito mais distante.
A matemática não fecha, e a lógica administrativa menos ainda. O novo imóvel, além de custar mais, é menor, mais longe e oferece condições inferiores ao espaço atual. Se a ideia era otimizar logística e reduzir gastos, o resultado parece exatamente o oposto, como se a eficiência tivesse sido deixada do lado de fora da planilha.
Fica a reflexão para o povo, que paga a conta e enfrenta prateleiras vazias quando precisa de atendimento. Ou alguém negocia muito mal, ou alguém negocia bem demais — tudo depende de qual lado da mesa se está sentado. Por enquanto, a população apenas observa, questiona e espera respostas que, até agora, ninguém se dispôs a dar.