
A morte do engenheiro Laércio Araújo Chaves não foi apenas consequência de um acidente de trânsito. Foi o resultado de uma sequência de negligências que se acumulam há meses sob a responsabilidade da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), ignoradas por quem tinha o dever de agir. Na MS-080, o que se viu no último sábado (28/03) não foi surpresa. Foi a materialização de uma tragédia anunciada.
A rodovia que liga Campo Grande a Rochedo já vinha sendo alvo de inúmeras reclamações por parte de motoristas, moradores e usuários frequentes. Buracos, desníveis e falta de manutenção transformaram o trajeto em uma verdadeira armadilha. Ainda assim, nada foi feito com a urgência que o caso exigia.
Laércio, de 63 anos, seguia em um Fiat Mobiacompanhado de uma passageira quando teve sua vida interrompida de forma brutal após uma colisão frontal. Do outro lado, um Fiat Palio Weekend transportava uma família, incluindo uma criança. O cenário que se formou foi de destruição, dor e desespero.
Segundo relato de testemunha que prestou socorro, um dos veículos teria desviado de um buraco na pista, o que pode ter provocado o choque frontal. A informação ainda será confirmada oficialmente, mas ela escancara uma suspeita que há muito tempo ecoa entre os usuários da rodovia: o asfalto precário virou agente de risco.
Mesmo que a dinâmica completa ainda esteja sob investigação, é impossível ignoraro fato de que aMS-080 está em condições inaceitáveis. E isso não é novidade. A precariedade da pista já foi denunciada diversas vezes, sem que providênciasfossem adotadas pela Agesul.
O impacto da colisão foi tão violento que um dos veículos ficou completamente destruído no meio da pista. O outro foi arremessado para fora da via, parando em meio à vegetação. Um dos ocupantes ficou preso nas ferragens e precisou ser resgatado, enquanto o fogo ameaçava transformar a cena em algo ainda mais trágico.
Quatro pessoas foram socorridas, algumas em estado grave. O trânsito precisou ser interrompido, e motoristas foram obrigados a improvisar rotas alternativas por estradas vicinais. O caos tomou conta da rodovia, revelando não apenas a gravidade do acidente, mas também a fragilidade da estrutura viária.
O detalhe mais revoltante é que tudo isso poderia ter sido evitado. Bastava manutenção básica. Bastava ouvir os alertas. Bastava agir com responsabilidade. Mas a inércia e a incompetência falaram mais alto, e o preço foi pago com uma vida.
A responsabilidade recai diretamente sobre aAgesul, comandada por Rudi Fiorese. A pasta, que deveria zelar pela conservação das rodovias estaduais, falhou de forma grave e reiterada. Não se trata de um erro isolado, mas de um padrão de omissão.
Não é aceitável que uma rodovia importante permaneça em estado crítico por tanto tempo sem intervenção eficaz. Não é aceitável que pedidos de reparo sejam ignorados até que uma vida seja perdida. E não é aceitável que, após a tragédia, tudo continue como se nada tivesse acontecido.
A morte de Laércio não pode ser tratada como estatística. Ela precisa ser encarada como um alerta definitivo. Cada buraco não tapado, cada trecho negligenciado, representa um risco real e iminente para quem passa por ali todos os dias.
Se nada mudar, outras vidas serão colocadas em perigo. E quando o próximo acidente acontecer, não haverá surpresa, apenas repetição. Afinal, o que aconteceu na MS-080 não foi acidente, foi consequência.