Mapa: relíquias de esquinas, onde estão os orelhões que se despedem das ruas de Campo Grande?

Por anos, os orelhões aproximaram pessoas a longas distâncias. Foram pontes de voz, abrigo de urgências, afago de apaixonados e notícias inesperadas. Debaixo do sol, da chuva, do tempo. Antes da internet caber no bolso, a saudade precisava de ficha ou de um cartão telefônico.

A maior parte dos aparelhos, que estão desativados, está localizada em frente a unidades de saúde, no Centro e em escolas públicas. Apenas um continua ativo, localizado em frente à UBSF (Unidade Básica da Saúde da Família) Dr. Roger Buainain, no distrito de Rochedinho, próximo à MS-010.

Orelhões temáticos

Campo Grande teve quatro orelhões temáticos com figuras da fauna sul-mato-grossense espalhados pela cidade; muitos já deixaram de existir, como o orelhão em formato de onça, na Avenida Afonso Pena, e o da garça, na Rua Rui Barbosa.

Por meio de registros fotográficos do Google Street View, é possível identificar que a operadora retirou a garça da frente da antiga sede da Oi em 2024. O Google registrou a última imagem do orelhão em formato de garça em 2023.

Já no caso do orelhão com o tema da onça-pintada, a operadora retirou o equipamento da frente do Indaiá Park Hotel em 2024. Segundo um funcionário, a retirada ocorreu durante as obras de revitalização do hotel. “O aparelho telefônico já não existia mais nele”, disse.

Os que ainda resistem

A reportagem encontrou apenas duas estruturas temáticas em pé, sendo apenas uma revitalizada e considerada um monumento, na Rua Barão do Rio Branco. A estrutura em formato de tucano está recém-pintada graças ao empresário e proprietário de uma loja especializada em fotos, a Clan Color, Fabrício Miranda.

A estrutura tem quase 30 anos e já não possui mais o aparelho telefônico. Fabrício não se lembra de quando a operadora retirou o equipamento, mas fez questão de comprar um próprio para instalar no local, que hoje funciona como ponto turístico. Ele explica que comerciantes adquiriram a maioria das estruturas temáticas.

“O tucano também é o animal logo da loja e símbolo do nosso Pantanal; então, mantemos bonitinho, recém-pintado. As crianças passam, olham e tiram fotos.”

‘Queríamos revitalizar’

Há uma arara instalada em frente a um comércio de produtos naturais, na Avenida Duque de Caxias. Um funcionário conta que a loja funciona há quatro anos no local e que o orelhão já estava sem o aparelho. O proprietário teria interesse em pintar a estrutura, mas teme que ela seja retirada.

“Até queríamos pintar, porque é uma estrutura bonita, mas o proprietário não sabe se pode ou se investe nisso e alguém manda tirar.”

Na estrutura, ainda restam resquícios que indicam tratar-se de uma arara-vermelha. A cabeça é a parte mais danificada pelo tempo, pois o bico e os olhos já não têm pintura.

Quem nem sequer usou orelhão

Enquanto passava pela Rua Maracaju, onde está instalado um velho orelhão, a assistente financeira Yasmin Cabral, de 20 anos, observava o aparelho. Alvo de vandalismo, ele está rodeado de mato e, portanto, não atrai muita atenção.

Diante desse cenário de abandono, Yasmin conta que nunca precisou usar um orelhão, já que nasceu na era do avanço tecnológico dos celulares. “Não sei nem usar”, diz. “O orelhão acaba perdendo a utilidade na rua.”

Quem contou com o orelhão na infância

Jéssica Ortiz, enfermeira de 36 anos, relembra que cresceu com um orelhão em frente à Escola Maria Eliza Bocayuva Corrêa da Costa, na Vila Margarida.

“O aparelho foi retirado da escola há mais de 10 anos, acredito, mas aquele orelhão me salvou quando precisava ligar a cobrar para minha mãe ou minha avó. Acho que a ligação na secretaria era cobrada, não lembro direito, mas os alunos pediam para ligar para a família, em casos de emergência, por aquele orelhão.”

“Na minha época, já tinha cartão com créditos para ligação; quem não tinha podia ligar a cobrar para quem tinha linha de telefone fixo. Já liguei quando liberavam mais cedo ou quando passava mal. Só pessoas com melhores condições financeiras tinham celular. Eu só fui ter um quando tinha uns 14 anos. Então, decorava o número da minha casa quando precisava ligar.”

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