
Em meio ao drama crescente de servidores públicos mergulhados em dívidas consignadas, uma voz se levantou na Câmara Municipal de Campo Grande para cobrar providências. A presidente da Federação Sindical dos Servidores Públicos Estaduais e Municipais de Mato Grosso do Sul, Lilian Fernandes, usou a tribuna para denunciar a situação de superendividamento enfrentada por trabalhadores vinculados a contratos com o Banco Master e pedir medidas urgentes para proteger quem depende do salário para sobreviver.
A dirigente sindical apresentou um pedido formal de suspensão dos descontos em folha e abertura de auditoria nos contratos vinculados ao sistema conhecido como Credcesta. O documento foi encaminhado ao Executivo municipal ainda em dezembro do ano passado. Passados mais de três meses, a solicitação sequer recebeu resposta da administração comandada pela prefeita Adriane Lopes.
A omissão causa indignação entre os servidores e reforça a percepção de distanciamento entre a gestão municipal e os problemas enfrentados pela categoria. Enquanto famílias lidam com descontos que consomem parte significativa da renda mensal, o pedido de socorro protocolado pela federação permanece sem qualquer análise.
Na tribuna, Lilian Fernandes descreveu um cenário de verdadeira armadilha financeira. Segundo ela, instituições se aproveitam da garantia da folha de pagamento para oferecer crédito fácil aos servidores. A promessa de solução rápida se transforma em pesadelo quando os descontos passam a comprometer o orçamento familiar e não há canais de negociação ou esclarecimento.
A presidente da federação ressaltou que muitos trabalhadores sequer têm acesso aos contratos que teriam assinado. Há casos em que o servidor não consegue descobrir quanto realmente deve, nem com quem negociar a dívida. A ausência de telefone, atendimento ou resposta agrava ainda mais a sensação de abandono.
Lilian também lembrou que o próprio decreto municipal que regula o crédito consignado estabelece critérios claros para as instituições financeiras que operam com servidores. Entre as exigências estão a regularidade documental, autorização do Banco Central e estrutura mínima de atendimento na Capital. O questionamento levantado pela federação é se essas exigências estão sendo efetivamente cumpridas.
A dirigente citou exemplos de outras administrações públicas que agiram com rapidez diante de situações semelhantes. Estados e municípios já suspenderam temporariamente descontos em folha para permitir auditorias e renegociações. A medida não representa perdão de dívidas, mas um passo necessário para restabelecer transparência e garantir que os contratos sejam legítimos.
Enquanto outras cidades adotam postura preventiva para proteger seus servidores, Campo Grande se cala diante de um pedido que envolve a sobrevivência financeira de muitos trabalhadores. O silêncio do Executivo transforma uma demanda legítima em símbolo de descaso administrativo.
Na Câmara, a postura firme de Lilian Fernandes foi vista como um raro gesto de defesa direta da categoria. Ao expor o problema publicamente e cobrar providências, a presidente da federação deu voz a servidores que muitas vezes se sentem sozinhos diante de contratos confusos e dívidas que parecem não ter fim.
O episódio revela um contraste que não passa despercebido. De um lado uma liderança sindical que assume a responsabilidade de enfrentar um problema delicado em defesa dos trabalhadores. De outro uma gestão municipal que, até agora, não apresentou qualquer resposta a um pedido protocolado há mais de três meses. Em uma cidade onde o serviço público depende da dedicação de seus servidores, ignorar seu apelo é ignorar também a base que sustenta a administração.