
Campo Grande parece viver um roteiro repetido de desgaste administrativo que agora atinge em cheio o esporte. Depois de um período marcado por críticas à condução da saúde pública, o secretário Sandro Benítez volta ao centro das polêmicas ao adotar medidas que, segundo atletas e organizadores, inviabilizam a realização de competições na Capital.
A nova cobrança pelo uso de espaços públicos para eventos esportivos desagrada federações e dirigentes. Ginásios, estádios e complexos esportivos que deveriam servir como instrumentos de incentivo passam a ter tabelas de valores que são incompatíveis com a realidade das entidades locais.
Para utilizar o Ginásio Guanandizão, o valor estipulado ultrapassa R$ 2,5 mil. No Estádio Jacques da Luz, o custo chega a mais de R$ 11 mil para uso do complexo. Em uma cidade que já enfrenta dificuldades para formar atletas com apoio institucional, a medida soa como obstáculo extra.
O esporte de base em Campo Grande sobrevive, em grande parte, do esforço individual de famílias, treinadores e voluntários. Vaquinhas, rifas e campanhas solidárias substituem o investimento que deveria partir do poder público. Diante desta realidade, cobrar pelo uso dos equipamentos não faz o menor sentido.
A justificativa de que eventos precisam arcar com custos não convence o setor esportivo quando se trata de competições que não visam lucro, mas formação e visibilidade para jovens talentos. Há diferença entre um grande show com bilheteria robusta e um campeonato regional que movimenta a economia local de forma indireta.
Entidades que tentam trazer torneios estaduais e nacionais temem que a nova política inviabilize parcerias. O impacto não recai apenas sobre atletas, mas sobre hotéis, restaurantes e comércio, que se beneficiam da circulação de visitantes em eventos esportivos.
O argumento de que a cidade precisa equilibrar contas não pode ignorar o papel decisivo do esporte na inclusão social e na projeção da Capital. Cidades que investem em competições e infraestrutura colhem retorno em imagem, turismo e desenvolvimento humano.
A crítica que ecoa nos bastidores do esporte aponta que a gestão anterior na saúde já deixou marcas profundas, e agora a condução do esporte segue caminho semelhante de insatisfação. A percepção é de que decisões administrativas têm sido tomadas sem diálogo amplo com quem vive o cotidiano das quadras e dos campos.
Atletas que representam Mato Grosso do Sul em nível nacional e até internacional passam a conviver com a possibilidade de pagar para competir em casa. Para muitos, isso representa inversão de prioridades e desestímulo a quem carrega o nome da cidade para além das fronteiras estaduais.
Se a intenção é fortalecer o esporte, a política adotada precisa ser repensada. Campo Grande não pode transformar seus próprios espaços em barreiras financeiras para quem luta por medalhas e formação de talentos. O risco é trocar o incentivo pela cobrança e assistir, mais uma vez, a um setor essencial perder fôlego.