Cratera na Duque de Caxias vira símbolo deasfalto podre e corrupção milionária

A gigantesca cratera aberta na Avenida Duque de Caxias não escancarou apenas o asfalto esfarelado de uma obra milionária inaugurada há menos de um ano. Escancarou também o retrato cruel de uma cidade onde a população é obrigada a conviver diariamente com serviços de quinta categoria enquanto grupos suspeitos de integrar esquemas de corrupção seguem enchendo os bolsos com o dinheiro do povo.

A obra de R$ 32,4 milhões foi vendida como símbolo de eficiência administrativa durante as comemorações dos 126 anos de Campo Grande. A prefeita Adriane Lopes chegou a citar a revitalização da Duque de Caxias como exemplo de gestão. Menos de nove meses depois, o discurso afundou junto com o pavimento. O asfalto cedeu, abriu uma enorme cratera e transformou uma das principais avenidas da cidade em cenário de revolta, insegurança e indignação.

O mais constrangedor para a administração municipal é que a própria Agesul praticamente lavou as mãos e apontou diretamente para a Prefeitura de Campo Grande como responsável pelo trecho defeituoso. Segundo a agência estadual, o trecho executado pelo Governo do Estado apresenta “excelente condição estrutural”, sem qualquer patologia identificada. Já o trecho onde surgiu o buraco gigantesco foi justamente o executado pela gestão municipal.

A situação se torna ainda mais revoltante porque não se trata de um caso isolado. Campo Grande vive há anos sob a sensação de abandono, com ruas deterioradas, recapeamentos que não resistem ao tempo e operações intermináveis de tapa-buraco que parecem consumir milhões sem jamais resolver o problema de verdade. O cidadão paga imposto alto, destrói suspensão de veículos, sofre acidentes e ainda precisa assistir ao dinheiro público evaporar em esquemas milionários de corrupção.

O escândalo ganhou contornos ainda mais graves após a deflagração da Operação Buracos Sem Fim pelo Ministério Público Estadual. As investigações apontam a existência de uma organização criminosa estruturada para desviar recursos públicos ligados justamente às obras e serviços de manutenção viária. Enquanto a população desviava de crateras nas ruas, quadrilheiros desviavam milhões dos cofres públicos nos bastidores da máquina municipal.

Entre os alvos da operação está o ex-fiscal de contratos Edivaldo Aquino Pereira, acusado de favorecer a Construtora Rial dentro da prefeitura. A gravidade do caso é assustadora porque o fiscal de contrato exerce justamente a função de acompanhar a qualidade da obra, verificar irregularidades e impedir desperdício de dinheiro público. Ou seja, quem deveria proteger a população aparece no centro das suspeitas de favorecimento das empresas contratadas.

A reação da prefeitura também chama atenção. Apenas uma semana após a operação policial, a gestão Adriane Lopes promoveu a troca dos fiscais responsáveis por seis contratos ligados ao tapa-buraco. Quatro deles envolvendo a própria Construtora Rial e dois relacionados à RR Barros Serviços e Construções. A mudança abrupta passa longe de transmitir tranquilidade para a população. Pelo contrário. Reforça a percepção de que o sistema inteiro estava contaminado.

Os números tornam tudo ainda mais escandaloso. O gasto médio anual com tapa-buracos praticamente explodiu na atual gestão. Saltou de R$ 13,5 milhões para R$ 46,3 milhões, um aumento de 242%. Mesmo assim, a cidade mergulhou numa epidemia de crateras. Nos últimos sete anos, apenas três empresas receberam cerca de R$ 239,6 milhões em contratos relacionados à manutenção viária. Somente na gestão Adriane Lopes, os gastos chegaram a R$ 185,4 milhões.

O problema, portanto, nunca foi falta de dinheiro. Dinheiro existiu em abundância. O que faltou foi respeito com a população, fiscalização séria e compromisso verdadeiro com a qualidade das obras executadas. Enquanto milhões eram despejados em contratos públicos, Campo Grande seguia colecionando ruas destruídas, recapeamentos precários e acidentes causados pela deterioração das vias.

A cratera da Duque de Caxias acabou se transformando em muito mais do que um defeito no asfalto. Ela virou símbolo de uma gestão incapaz de entregar infraestrutura duradoura e da suspeita cada vez mais forte de que o dinheiro público destinado às ruas estaria alimentando esquemas repugnantes de corrupção. Como sempre, sobra ao cidadão o papel mais cruel dessa engrenagem. Financiar, com os próprios impostos, um ciclo de desperdício, asfalto podre e escândalos que parecem não ter fim.

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