
Basta o céu escurecer para Campo Grande parar. A cada chuva mais intensa, a Capital expõe uma fragilidade estrutural que já deixou de ser eventual e passou a ser rotina. Semáforos piscando em amarelo ou completamente desligados, cruzamentos perigosos, avenidas tomadas pela água e asfalto arrancado escancaram um problema que não nasce da tempestade, mas da falta de planejamento, de responsabilidade e de compromisso com o povo.
Nos últimos dias, falhas em semáforos foram registradas na Rua Thyrson de Almeida, na Avenida Graciliano Ramos, na Rua Rachel de Queiroz, na Avenida Ernesto Geisel e na Avenida Costa e Silva. Em bairros como Aero Rancho e Pioneiros, o sinal intermitente se tornou parte da paisagem urbana, mesmo quando não está chovendo. O resultado é insegurança constante e risco real de acidentes.
Na região da Thyrson de Almeida, próxima ao córrego e ao cruzamento com a Graciliano Ramos, motoristas disputam passagem sempre que o semáforo falha. O cenário se repete em diferentes pontos da cidade, revelando um sistema viário vulnerável, incapaz de resistir a fenômenos previsíveis em qualquer capital brasileira.
Os alagamentos também voltaram a atingir áreas já conhecidas pelos moradores. O Lago do Amor transbordou novamente e a água invadiu avenidas importantes. Na Avenida Costa e Silva, em frente à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, parte da via ficou praticamente intransitável. No cruzamento da Calógeras com a Fernando Corrêa da Costa, o volume de água assustou quem precisava atravessar a região.
No Bairro Monte Castelo, a Avenida Rachid Neder viu o asfalto ser arrancado outra vez entre as ruas José Antônio e Padre João Crippa. O detalhe que revolta é que o trecho havia sido recuperado há menos de dois meses com toneladas de massa asfáltica. O dinheiro público escorreu junto com a enxurrada.
Especialistas apontam que o problema é estrutural. A expansão urbana acelerada e desordenada, a impermeabilização excessiva do solo e a ocupação de áreas naturalmente drenantes alteraram o equilíbrio hídrico da cidade. O resultado são enxurradas mais rápidas, picos de vazão mais intensos e sistema de drenagem sobrecarregado.
Limpar bocas de lobo é medida necessária, mas insuficiente. O que Campo Grande precisa é de planejamento integrado de bacias hidrográficas urbanas, construção de piscinões estratégicos, ampliação de galerias e recuperação de áreas de infiltração. Sem ações estruturais, qualquer chuva mais forte continuará transformando ruas em rios.
Enquanto técnicos falam em gestão da macrodrenagem e controle da impermeabilização, a gestão municipal parece agir apenas de forma reativa. A prefeita Adriane Lopes não pode tratar eventos recorrentes como se fossem surpresa climática. A cidade já deu provas suficientes de que o problema é conhecido e exige prioridade absoluta.
A omissão custa caro. Custa em acidentes, em prejuízo para comerciantes, em veículos danificados e em medo para quem precisa sair de casa. Custa também em credibilidade porque promessas de solução da prefeita não resistem à primeira chuva.
Campo Grande não afunda por falta de alerta. Afunda por falta de ação. A cada tempestade, a cidade expõe suas fragilidades e a população cobra respostas que continuam sendo adiadas. Enquanto soluções estruturais não saírem do papel, bastará uma nuvem carregada para lembrar que o problema não é a chuva, é a gestão.