
A Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul(Alems) continua carregando uma pergunta que não encontra resposta em lugar nenhum. Em meio a falas sobre zelo e eficiência, a Casa de Leis evita tocar no assunto para não ter que explicar o destino da sobra do duodécimo do exercício encerrado, valor que não foi devolvido ao Governo do Estado e tampouco teve seu uso detalhado ao contribuinte.
A Assembleia Legislativa conhece a importância simbólica e prática da devolução quando há economia. Já o fez em outros momentos e anunciou como virtude administrativa. O que causa estranhamento agora é a mudança de postura sem qualquer esclarecimento à população.
Se houve sobra, é razoável perguntar por que não retornou ao caixa estadual. Se não retornou, é obrigatório explicar onde foi aplicado, em quais destinações orçamentárias, com quais contratos e com que justificativa. A ausência dessa prestação de contas alimenta desconfiança e corrói a credibilidade do Legislativo.
O mistério da sobra do duodécimo ganha peso adicional porque a Casa cobra transparência de outros poderes com frequência. Fiscaliza, convoca, exige documentos. Ao silenciar sobre o próprio orçamento, a Assembleia cria um descompasso que fragiliza sua autoridade moral e transforma um procedimento contábil em sério problema político.
No centro desse cenário está o presidente Gerson Claro, figura que naturalmente concentra a responsabilidade pela condução administrativa do Legislativo. A cobrança não nasce de perseguição, mas de expectativa. Quem preside o Parlamento precisa liderar pelo exemplo, sobretudo quando seu nome já esteve associado a controvérsias amplamente noticiadas envolvendo o Detran/MS.
A memória pública não apaga investigações e processos apenas com o passar do tempo. Pelo contrário, ela reforça a necessidade de respostas embasadas em provas irrefutáveis. Em um ambiente político marcado por sucessivos escândalos, a régua da explicação precisa ser mais alta, não mais baixa.
A falta de esclarecimento sobre o duodécimo não é um detalhe técnico. É uma escolha política. Ao não explicar, a Casa de Leis permite que se multipliquem conjecturas sobre reservas informais, falsasdespesas ou mesmo desvio de verba pública. Nenhuma dessas hipóteses deveria existir se os dados fossem apresentados de forma clara e acessível.
O problema se amplia quando se observa a cultura interna. Se alguém se der ao trabalho de pesquisar certidões e antecedentes na Casa de Leis, o histórico revela que a política local convive há tempo demais com sombras éticas. Não se trata de generalizar culpas, mas de reconhecer que o padrão exige filtros mais rigorosos e práticas transparentes.
Transparência não é favor e não depende de provocação externa. É dever permanente, é obrigação. Publicar relatórios compreensíveis, detalhar a execução orçamentária e explicar decisões sensíveis são atitudes básicas para quem administra recursos de toda a sociedade.
Enquanto a Assembleia não responder de forma direta o que foi feito com o dinheiro que não voltou, a pergunta continuará ecoando. E cada dia de silêncio transforma uma sobra contábil em símbolo de uma instituição que cobra muito, mas explica pouco. É o famoso: faça o que digo, mas não faça o que eu faço!