Boibras afunda em dívidas, repete calotes e revolta credores em MS

A crise envolvendo o frigorífico Boibras voltou a ganhar contornos ainda mais revoltantes com novos relatos de inadimplência dentro do próprio processo de recuperação judicial que deveria justamente assegurar o pagamento dos credores. A empresa é controlada por Régis Luís Comarella, figura influente na Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul e também no Sicadems, o sindicato que representa a indústria da carne no Estado. Como se não bastasse a posição de poder dentro do setor, o empresário ainda carrega vínculos familiares com um deputado estadual, o que apenas aumenta a perplexidade diante da sequência de calotes que atinge produtores rurais e trabalhadores.

A recuperação judicial da empresa foi aberta depois que a Boibras acumulou dívidas superiores a R$ 50 milhões entre 2023 e 2024. O processo deveria ser um caminho de reorganização financeira e de respeito aos credores que confiaram na empresa. O que se vê agora é justamente o contrário. Reclamações voltam a se multiplicar no processo judicial apontando que o plano aprovado não vem sendo cumprido.

Nos autos da recuperação judicial, fornecedores começaram a denunciar o descumprimento sistemático das obrigações assumidas. O caso mais emblemático envolve o produtor rural Elo Ramiro Loeff, que cobra R$ 941 mil. Desse valor, R$ 444 mil já foram reconhecidos pela própria empresa como dívida incontroversa. Mesmo assim o pagamento continua travado, alimentando a revolta de quem produziu, entregou o gado e ficou esperando receber.

Outros credores também relatam atrasos e frustrações. Entre eles estão Enio Câmara Florêncio, Elso Florêncio e Lívia Teixeira Mondini. Todos fazem parte da classe de pecuaristas que abasteceram o frigorífico e hoje convivem com a incerteza de quando ou se irão receber. Para muitos desses produtores, o prejuízo representa o resultado de anos de trabalho no campo.

Advogados que representam os credores apontam nos autos que a empresa está em atraso há mais de 90 dias em parcelas que deveriam ter sido pagas ainda em novembro de 2025. O descumprimento do plano aprovado pela própria Justiça revela um cenário preocupante. Trata-se de uma empresa que ignora as condições que aceitou perante o Judiciário, demonstrando que utiliza a recuperação judicial como instrumento para empurrar dívidas para frente.

A indignação cresce porque a lógica da recuperação judicial exige boa-fé e compromisso com os credores. Sem isso o processo perde legitimidade e transforma o sofrimento financeiro de produtores e trabalhadores em uma longa espera sem garantias. No campo, onde cada animal vendido representa meses de trabalho e investimento, o impacto é devastador.

O quadro se torna ainda mais polêmico quando se observa o peso político e institucional do empresário que controla a empresa. Régis Comarella ocupa posição de liderança dentro da indústria e participa de decisões relacionadas ao Fundo de Desenvolvimento Rodoviário de Mato Grosso do Sul, estrutura que movimenta mais de R$ 1 bilhão por ano.

Enquanto produtores aguardam pagamentos que não chegam, surgem também denúncias de créditos trabalhistas atrasados. Dois trabalhadores precisaram recorrer ao Judiciário para cobrar valores que deveriam ter sido pagos pela empresa. Posteriormente o administrador judicial informou o pagamento de R$ 28 mil, valor que parece apenas um pequeno remendo em um problema muito maior.

Outro detalhe que chama atenção é a defesa jurídica da empresa. A Boibras é representada pelo advogado Rodrigo Pimentel, nome já conhecido em investigações conduzidas pela Polícia Federal. A presença de um personagem associado a operações policiais apenas adiciona mais um capítulo controverso a uma história que já provoca indignação no setor produtivo.

Como se não bastasse, a estrutura industrial onde opera a Boibras abriga também uma unidade da BMG Foods no mesmo complexo localizado no km 606 da BR 163, em São Gabriel do Oeste. Apesar de possuírem CNPJs distintos, os abates ocorrem na mesma planta industrial. Para muitos observadores do mercado, essa convivência levanta dúvidas e alimenta questionamentos sobre a real organização das operações.

Diante desse cenário, a revolta entre produtores e trabalhadores se intensifica a cada parcela não paga e a cada promessa descumprida. O caso escancara um abismo entre o discurso de liderança propagado na Fiems e a realidade cruel de quem entregou gado, cumpriu sua parte e ficou à espera de pagamento. A repetição de calotes sob o comando de Régis Comarella faz com que o dano ultrapasse o prejuízo individual dos credores. O que passa a ser corroído é a confiança que sustenta toda a cadeia produtiva, transformando um problema empresarial em uma ferida aberta na credibilidade do próprio sistema industrial.

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