
A prefeita Adriane Lopes decidiu apostar alto para tentar escapar do risco de cassação no Tribunal Superior Eleitoral, contratando um escritório de peso em Brasília enquanto a cidade enfrenta uma crise política sem precedentes. A estratégia clara e ruidosa consiste em trocar a defesa local por uma blindagem de alto custo na última instância eleitoral.
O comando da nova defesa ficou com Maria Cláudia Bucchianeri Pinheiro, ex-ministra substituta do TSE e nome conhecido nos bastidores do poder. A escolha chama atenção pelo histórico e pelos valores envolvidos, sobretudo em um momento em que a prefeita é acusada de abuso de poder econômico e compra de votos nas eleições municipais.
A ação que chegou ao TSE aponta que Adriane e a vice-prefeita, Camilla Nascimento, teriam sido beneficiadas por um esquema de captação ilícita de sufrágio em 2024. Embora o Tribunal Regional Eleitoral tenha rejeitado a cassação por 5 a 2, o julgamento deixou marcas profundas e abriu caminho para a escalada do caso a Brasília.
O detalhe que revolta é que seis dos sete magistrados do TRE reconheceram a existência de compra de votos. A maioria apenas discordou quanto à prova direta de comando ou participação das candidatas, mesmo admitindo que elas teriam sido as beneficiárias finais da prática ilegal. Um veredito que soou contraditório e insuficiente para encerrar o debate.
O Ministério Público Eleitoral, acompanhado por dois juízes, sustentou que há provas robustas para cassar os mandatos e convocar novas eleições em Campo Grande. A divergência interna no tribunal regional alimentou a sensação de que o caso não se encerrou ali e que a palavra final, de fato, caberá ao TSE.
A troca de advogados evidencia essa leitura. A defesa anterior, feita por nomes locais, deu lugar a um escritório com trânsito nas cortes superiores e fama de atuação agressiva. Em Brasília, não se trata mais de explicar os fatos, mas de vencer no terreno técnico e político do direito eleitoral.
O currículo da nova defensora impressiona e incomoda. Em janeiro de 2024, Maria Cláudia firmou contrato de R$ 10 milhões com a Confederação Brasileira de Futebol para defender seu então presidente. Um valor que virou símbolo de advocacia de elite e agora ecoa no processo que envolve a prefeita.
Com passagem pela USP e pela Universidade de Coimbra, atuação em casos de grande repercussão nacional e histórico de decisões polêmicas no período em que integrou o TSE, a advogada carrega tanto prestígio quanto controvérsia. Sua presença no processo eleva o tom e transforma a disputa jurídica em um embate de forças.
O julgamento ainda não tem data marcada, mas o cenário já está armado. De um lado, a acusação sustentada pelo Ministério Público. Do outro, uma defesa estrelada e caríssima. No meio, Campo Grande, que aguarda para saber se o futuro político da cidade será decidido pelo mérito dos fatos ou pelo peso do dinheiro e das conexões em Brasília.