
A decisão da vice-prefeita Camilla Nascimento de deixar o Avante, partido historicamente alinhado à prefeita Adriane Lopes, acendeu um sinal político claro nos bastidores do Paço Municipal. Oficialmente tratada como uma escolha pessoal e partidária, a saída ocorre em um momento em que a base da prefeita se esfarela e o debate sobre a cassação do mandato ganha corpo no Legislativo.
Ao iniciar o ano sem filiação partidária, Camilla passa a adotar uma posição de cautela estratégica. O movimento é interpretado por observadores como uma tentativa de se desvincular gradativamente da atual gestão, marcada por desgaste político, crises administrativas sucessivas e crescente isolamento da prefeita perante a Câmara Municipal e a opinião pública.
A filiação da vice ao Avante sempre esteve associada à liderança anterior da legenda, Lúcio Soares, e sua permanência deixou de fazer sentido após mudanças internas no partido. No entanto, o timing da desfiliação chama atenção. Em meio a denúncias, investigações e derrotas políticas impostas à prefeita, a neutralidade partidária surge como um escudo preventivo.
Com isso, o ambiente político indica que a vice-prefeita passa a caminhar em terreno próprio justamente quando vereadores, inclusive ex-aliados, admitem publicamente a possibilidade de cassação como saída extrema para a crise instalada na Capital.
A sessão extraordinária que derrubou o reajuste abusivo da taxa do lixo foi um divisor de águas. Além da derrota acachapante do Executivo, o plenário se transformou em palco de desabafos, arrependimentos e críticas diretas à prefeita, algo raro em gestões com base sólida.
Nesse contexto, a posição da vice ganha centralidade. Caso avance qualquer processo de afastamento da prefeita, é Camilla quem, em tese, assumiria o comando do município. Não por acaso, parte da população e de lideranças políticas manifesta preocupação com a hipótese de continuidade do mesmo projeto administrativo, ainda que sob outro nome.
A desfiliação do Avante pode ser lida como uma tentativa de romper simbolicamente com essa herança. Ao se colocar fora de partidos aliados da prefeita, Camilla sinaliza que não pretende carregar sozinha o peso de uma gestão cada vez mais impopular e questionada.
Nos bastidores, cresce a avaliação de que a vice busca preservar capital político e viabilidade futura. Permanecer atrelada a um governo sob risco de cassação poderia significar desgaste irreversível. Ao optar pela neutralidade, ela ganha margem de manobra e tempo para observar os próximos movimentos do tabuleiro político.
Enquanto isso, a prefeita segue enfrentando um cerco amplo. Vereadores de diferentes espectros ideológicos já verbalizam a cassação como possibilidade real, pressionados por eleitores que cobram respostas para problemas crônicos como buracos nas ruas, caos na saúde, aumento de impostos e denúncias envolvendo a administração.
A saída da vice do partido aliado não resolve o impasse institucional, mas reforça a percepção de isolamento do Executivo. A prefeita vê sua base minguar ao mesmo tempo em que antigos apoiadores adotam discurso crítico ou silencioso, ambos igualmente eloquentes.
Para Camilla Nascimento, o gesto representa mais do que uma simples troca partidária. Trata-se de um reposicionamento político em meio à tempestade. Em um cenário de incertezas, a vice-prefeita parece apostar na distância como forma de sobrevivência e, talvez, de construção de um caminho próprio.
Se a cassação irá avançar ou não, ainda é uma incógnita. O que já não é mais dúvida é que os movimentos de bastidores se intensificaram. E, nesse jogo, cada passo calculado é valioso.