
Mudam-se os nomes, trocam-se as salas, mas os métodos permanecem firmes, quase como patrimônio imaterial da gestão da prefeita Adriane Lopes. Há práticas que resistem ao tempo, aos discursos e às promessas de renovação. Em Campo Grande, a sensação é de que a troca de pessoas nunca significou, de fato, mudança de postura.
Nesse roteiro repetido, surge mais um personagem que parece dominar a arte de sempre cair de pé. Fausto Azevedo Tlaes volta ao primeiro escalão administrativo como se nada tivesse acontecido, ocupando agora um dos cargos mais estratégicos da Secretaria Municipal de Saúde, a Gerência de Suprimento e Abastecimento, setor que lida diretamente com compras, contratos e fornecedores.
Antes disso, Fausto passou pela Central do Cidadão, de onde, segundo comentários recorrentes de bastidores, teria saído em meio a situações que nunca foram devidamente esclarecidas. Nada oficialmente comprovado, é verdade, mas o suficiente para alimentar aquele folclore administrativo que insiste em sobreviver sempre que certos nomes reaparecem em novas funções.
A reencarnação funcional chama atenção não apenas pelo cargo, mas pelo local. A Sesau é considerada, há anos, uma das áreas mais sensíveis e disputadas da administração municipal. É ali que transitam contratos milionários, compras emergenciais e decisões que impactam diretamente o funcionamento da rede pública de saúde.
Nos corredores da secretaria, o entra e sai de fornecedores virou assunto recorrente. Comentários dão conta de uma movimentação intensa, quase frenética, como se a porta estivesse sempre aberta para quem souber bater do jeito certo. Há quem diga, inclusive, que alguns teriam sido convidados a “ser abençoados”, expressão curiosa que, por ali, parece ganhar contornos muito menos espirituais do que se imagina.
Oficialmente, claro, tudo deve obedecer a critérios técnicos, administrativos e absolutamente republicanos. Coincidências acontecem. Muitas. O tempo todo. E a gestão faz questão de tratar qualquer questionamento como exagero ou perseguição, ainda que o histórico recente recomende cautela.
Curiosamente, uma simples consulta pública ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul revela a existência de ação movida pela empresa Center Automóveis Ltda. contra o referido gestor. Nada espetacular, apenas aquele despacho protocolar solicitando à Prefeitura informações sobre remuneração, descontos em folha, penhoras e empréstimos consignados. Coisa rotineira, quase burocrática demais para despertar curiosidade, não fosse o contexto.
Nos bastidores, corre a informação de que a dívida ultrapassaria a casa dos R$ 200 mil. Valor que, no universo da política brasileira, parece pequeno, mas que levanta uma dúvida: a nomeação foi apenas mais um erro de avaliação ou uma escolha pensada para “organizar pendências” de quem ocupa cargo estratégico?
A indignação cresce porque não se trata de um caso isolado. A repetição de perfis controversos em funções sensíveis cria a sensação de que a gestão não apenas tolera, mas normaliza práticas que deveriam acender alertas. O discurso de moralização perde força diante de decisões que insistem em contrariá-lo.
Pessoas entram, pessoas saem, mas os velhos métodos permanecem intactos. E a revolta não nasce do boato ou da ironia, mas da constatação de que, enquanto a cidade enfrenta problemas graves, certos cargos continuam sendo tratados como abrigo seguro para quem sempre encontra espaço, independentemente do histórico.