
O que deveria ser inaceitável virou rotina em Campo Grande. A gestão da prefeita Adriane Lopes mergulha em mais um escândalo que atinge o ponto mais sensível da população, a saúde pública, justamente no momento em que o sistema já opera no limite do colapso.
A denúncia é grave e revoltante. Profissionais da rede pública de saúde teriam sido deslocados para atender um evento religioso ligado à própria igreja da prefeita, a Assembleia de Deus Missões, durante um congresso realizado no início de abril. Enquanto isso, nas UPAs da cidade, pacientes seguem esperando horas por atendimento.
Não se trata de apoio institucional a um evento de grande porte. Trata-se do uso da máquina pública para atender interesse privado, com estrutura paga pelo contribuinte e equipe de saúde que deveria estar nas unidades atendendo a população.
Relatos apontam que foi montada uma verdadeira sala de emergência dentro do evento religioso, com médicos, enfermeira e técnico de enfermagem, todos custeados com recursos públicos. Uma estrutura completa, equipada como se fosse um plantão regular de UPA, mas fora dela.
A ironia é cruel. Para a igreja há atendimento imediato, equipe completa e estrutura pronta. Para o cidadão comum, sobra fila, demora e abandono. Em muitos casos, pessoas passam mal dentro das unidades e aguardam sem qualquer assistência adequada.
O mais grave é que eventos dessa natureza possuem regras claras. A responsabilidade por atendimento emergencial é dos organizadores, que devem contratar ambulâncias e equipes privadas. Transferir esse custo para o poder público não é apenas questionável, é um desvio de finalidade que precisa ser punido com seriedade.
Enquanto isso, o cenário nas UPAs é conhecido e repetitivo. Falta médico, falta enfermeiro, falta insumo básico, falta medicação e até estrutura minimamente decente. Há registros frequentes de espera que ultrapassa horas, de pacientes que desistem e vão embora, de famílias que convivem com a angústia de não saber se serão atendidas a tempo.
Esse episódio não surge isolado. Ele se soma a uma sequência de denúncias que já beiram a centena nos últimos anos, todas apontando para o mesmo problema, uma gestão incapaz de garantir o mínimo funcionamento da saúde pública.
E quando a crise atinge seu ápice, a resposta é sempre a mesma. Notas oficiais, promessas de apuração e a abertura de procedimentos que raramente resultam em mudanças. A realidade nas unidades continua a mesma, dura e desumana.
A indignação cresce porque não se trata apenas de má gestão. Trata-se de prioridade. A população fica sempre em segundo plano. O interesse coletivo cede espaço a decisões que ferem a lógica administrativa e o respeito ao dinheiro público. É a inversão completa do papel do poder público.
Campo Grande assiste, mais uma vez, a um escândalo que não deveria existir. E enquanto isso, nas salas de espera das UPAs, o tempo segue passando para quem não pode esperar.