
Campo Grande completa um mês convivendo com uma das faces mais cruéis do colapso da saúde pública municipal. Duas mães enterraram seus filhos depois de peregrinarem por UPAs e unidades de saúde da Capital implorando por atendimento adequado. Desde então, seguem sem respostas da prefeitura e da Sesau, mergulhadas em silêncio, dor e revolta.
Os casos de João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, e Hannah Julia Romeiro Nolasco, de 8 anos, mostram uma realidade assustadora dentro da rede municipal de saúde. Crianças passaram por várias unidades, foram atendidas, medicadas e mandadas de volta para casa repetidas vezes até não resistirem mais.
João Guilherme começou a passar mal após uma queda no início de abril. A família buscou ajuda médica diversas vezes em unidades públicas de saúde, incluindo UPAs da Capital. Mesmo com dores persistentes e agravamento dos sintomas, o menino seguia sendo liberado após atendimentos superficiais.
Dias depois, já em estado gravíssimo, João morreu após tentativa de reanimação na Santa Casa. A tragédia gerou revolta e protestos silenciosos de familiares e amigos, que passaram a cobrar justiça e responsabilização pelo que chamam de negligência médica.
Poucas semanas depois, outra mãe enfrentaria o mesmo pesadelo. Hannah Julia começou com febre alta e sintomas gripais. A menina passou pelo CRS Coophavila II e pela UPA Leblon em sucessivas ocasiões. Fez exames, recebeu medicação e foi liberada diversas vezes mesmo apresentando piora contínua do quadro clínico.
Na última madrugada de vida, Hannah já apresentava sinais claros de gravidade. Vômitos constantes, dores intensas, falta de ar, lábios arroxeados e extrema debilidade. Ainda assim, segundo relato da família, houve demora no atendimento e dificuldade para conseguir medicação e vaga de observação.
A cena descrita pela mãe é devastadora. Hannah perdeu a respiração nos braços dela ainda aguardando atendimento. A criança entrou em parada cardiorrespiratória e não resistiu. Mais uma vida interrompida dentro de um sistema que parece incapaz de enxergar urgência até que seja tarde demais.
O mais revoltante é que, passados quase 30 dias das mortes, as famílias continuam sem respostas da Secretaria Municipal de Saúde. A prefeitura se limitou a emitir notas burocráticas baseadas na Lei Geral de Proteção de Dados, afirmando genericamente que os fatos estão sendo apurados.
Nenhuma explicação clara. Nenhum posicionamento humano. Nenhuma demonstração de responsabilização. Apenas silêncio institucional diante de mães destruídas pela dor de perder os filhos após sucessivas passagens pela rede pública municipal.
Os dois casos aprofundaram ainda mais a sensação de abandono que tomou conta da saúde pública de Campo Grande. Falta medicamento, faltam médicos, faltam leitos, falta estrutura e agora parece faltar até sensibilidade diante de tragédias envolvendo crianças.
Um mês depois, João Guilherme e Hannah continuam sem justiça. E duas mães seguem tentando sobreviver ao pior tipo de luto possível, convivendo diariamente com a ausência dos filhos e com o desprezo de uma gestão incapaz de oferecer respostas, acolhimento ou respeito pela vida humana.