Um empréstimo para tapar buracos que a própria gestão cavou

Ao votar contra o empréstimo de R$ 156 milhões, a vereadora Luiza Ribeiro não disse nada que a cidade já não estivesse cansada de saber e de sentir. Ela apenas traduziu em números o que os moradores veem todos os dias nas ruas escuras, nos postos sem remédio e nas obras que nunca saem do papel. A prefeita Adriane Lopes pede dinheiro como quem perdeu o cartão de crédito e tenta convencer o banco de que “agora vai”, enquanto o Índice Firjan aponta há dois anos consecutivos que Campo Grande tem a segunda pior gestão fiscal entre todas as capitais brasileiras.

Segundo o próprio Firjan, Campo Grande opera no limite do alerta fiscal, tem baixa capacidade de investimento, liquidez insuficiente e compromete praticamente toda a receita com gastos obrigatórios. A cidade amarga nota C na Capacidade de Pagamento do Tesouro Nacional, um atestado formal de que a prefeitura administra o dinheiro público com a leveza de quem acha que orçamento é ficção e que responsabilidade fiscal é apenas um slogan para discurso de posse.

Os números apresentados pela vereadora desmontam a narrativa da prefeita. Nos últimos 12 meses, Campo Grande arrecadou R$ 6,307 bilhões e gastou R$ 6,304 bilhões, queimando 99,94% de tudo. A prefeitura não guarda, não investe, não planeja. Ela apenas sobrevive, respirando por aparelhos, enquanto a população tenta entender como uma gestão que já consome praticamente toda a receita ainda pede mais dinheiro como se tivesse obras prontas para inaugurar.

E enquanto a conta fecha no vermelho, os serviços públicos fecham por falta de condições. A iluminação pública continua abandonada, com bairros inteiros há dois anos à espera da troca de lâmpadas, embora os contratos sigam faturando normalmente. O tapa-buracos acumula atrasos e só recebeu pagamento após a Câmara devolver recursos às pressas para evitar o apagão no serviço. A saúde vive um enigma digno de CPI, com 41% do orçamento consumido sem qualquer explicação e unidades funcionando sem fio de sutura, sem remédios, sem estrutura mínima.

A vereadora lembra que obras federais seguem paradas mesmo com recursos já enviados. EMEIs não concluídas, Ernesto Geisel engessada, projetos culturais em compasso de espera. Dinheiro tem, execução não. Mas, como num roteiro de mau gosto, a prefeita pede mais empréstimo para “fazer obras”, enquanto as obras que já têm verba continuam se arrastando como se o tempo estivesse suspenso dentro da prefeitura.

Nesse contexto de desorganização fiscal, ironicamente chamado de “gestão”, o governo federal decidiu abrir a porta do Plano de Promoção do Equilíbrio Fiscal para Adriane Lopes. Com direito a assinatura de foto oficial ao lado de Simone Tebet, a prefeita agora pode contrair até R$ 156 milhões por ano, desde que cumpra metas que lembram o básico que qualquer administração deveria fazer por padrão: melhorar liquidez, respeitar limites de pessoal, aderir à transparência e pagar dívidas.

O curioso é que essas metas são justamente aquilo que a gestão Adriane Lopes não consegue entregar. A prefeitura já estourou o limite fiscal e foi obrigada a acionar o plano de emergência que impede reajuste de servidores, concursos públicos e incentivos fiscais. A cidade vive com a corda no pescoço, mas, curiosamente, sempre encontra espaço para novos empréstimos. É o famoso “gasta-se tudo, mas pega-se mais”, como quem tenta apagar incêndio com gasolina.

Luiza Ribeiro resume aquilo que muitos moradores repetem diariamente: não faz sentido dar mais dinheiro a quem não explica o que fez com o que já tem. A transparência sumiu, os resultados não aparecem e a cidade está cansada de discursos que não resistem a uma caminhada rápida por qualquer bairro.

Mesmo assim, a Câmara Municipal aprovou o empréstimo. Não porque a gestão inspirasse confiança, mas porque Adriane prometeu pavimentar vias, fazer corredores de ônibus, recapear ruas e, de quebra, resolver problemas históricos. A população, porém, já aprendeu que promessas de obra nessa gestão valem menos que lâmpada de LED entregue pela iluminação pública: não acendem.

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