
O que está em curso em Campo Grande não é reforma, não é modernização e muito menos solução. É uma tentativa escancarada de vender a saúde pública para terceiros enquanto a gestão foge da responsabilidade de fazer o básico. A proposta de entregar unidades a organizações sociais, construída nos bastidores e agora levada a audiência pública, não passa de uma manobra ardilosa que ignora a realidade da população e abre espaço para interesses que lucram com a precariedade.
A iniciativa, conduzida pela prefeita Adriane Lopes em conluio com o secretário Marcelo Vilela, surge no exato momento em que a rede municipal enfrenta um dos seus piores cenários. Falta de medicamentos, unidades superlotadas, profissionais exaustos e pacientes sem atendimento adequado fazem parte do cotidiano. E, em vez de resolver, a solução apresentada é repassar.
Mas, se há dinheiro para pagar organizações sociais todos os meses, por que não investir esse mesmo recurso na própria rede pública? Por que não contratar profissionais, equipar unidades, garantir insumos e resolver o que está errado?
Não há inovação em entregar o que é público para terceiros enquanto o sistema continua falhando. Não há modernização quando o cidadão segue sem acesso ao básico. O que existe é tentativa de maquiar incompetência e descaso.
A proposta começa justamente por unidades estratégicas, como os centros regionais do Tiradentes e do Aero Rancho. Locais que deveriam ser prioridade absoluta da gestão direta. Em vez disso, tornam-se laboratório de um modelo que não resolve a raiz do problema.
A reação contrária não é por acaso. O Conselho Municipal de Saúde, que tem papel deliberativo, já se posicionou contra. Entidades, profissionais e representantes da área também não esconderam a indignação. E não se trata de resistência ideológica. Trata-se de defesa do que é público.
A realidade da saúde em Campo Grande é conhecida por todos. Faltam leitos, faltam exames, faltam profissionais. Pacientes aguardam atendimento por horas e, muitas vezes, por dias. E nenhuma dessas falhas será resolvida com a simples troca de gestão.
Entregar unidades para organizações sociais não cria um único leito, não reduz filas por mágica e não resolve a falta de estrutura. Apenas muda quem administra o problema. E, muitas vezes, dificulta ainda mais a fiscalização sobre o uso do dinheiro público.
Outro ponto que não pode ser ignorado é a transparência. Modelos desse tipo historicamente levantam dúvidas sobre controle e acompanhamento dos recursos. Em uma área tão sensível, qualquer risco de opacidade é inadmissível.
A tentativa de suavizar o discurso chamando a proposta de inovação não engana. A população sabe o que está acontecendo. Quando o poder público deixa de assumir sua função, alguém assume no lugar. E quase sempre com interesses bem definidos.
A audiência pública anunciada não pode servir como cortina de fumaça. Não pode ser apenas um rito para validar uma decisão já tomada. O debate precisa ser real e, principalmente, precisa respeitar a vontade da população que depende do sistema.
Campo Grande não precisa de experimentos nem de atalhos. Precisa de gestão séria, compromisso e responsabilidade. A saúde não está à venda. E qualquer tentativa de transformar um direito básico em oportunidade de negócio deve ser rejeitada com firmeza.