
A prefeita Adriane Lopes (PP) tem cobrado sacrifícios dos servidores, dos fornecedores e da população com pacotes de arrocho, corte de direitos e congelamento salarial. Mas, ao que tudo indica, o discurso de austeridade é seletivo. Quem integra a tropa de elite da prefeita, como o presidente da Funesp, Sandro Trindade Benites, recebe bônus generosos, folha secreta e supersalários que fazem inveja a muito gestor privado. Em maio, Sandro embolsou R$ 55.964,38 somando salários da Prefeitura de Campo Grande e do Governo do Estado.
Apesar de estar formalmente cedido ao município com ônus para a origem, ou seja, pago pelo Estado, Sandro Benites tem recebido um “agrado” mensal de R$ 19.748,35 da Prefeitura, como “outros pagamentos”, categoria misteriosa que escapa do radar da transparência, pois não sofre desconto de imposto de renda nem de INSS. O bônus se repete há meses, elevando seu rendimento líquido com verba pública a quase R$ 56 mil.
Sandro ainda recebe R$ 6 mil de subsídio como presidente da Funesp, mas o verdadeiro presente vem mesmo na forma desse extra. A cereja do bolo: como médico concursado do Hospital Regional, ele continua recebendo R$ 30.156,49, mesmo sem cumprir expediente, conforme a própria Secretaria de Saúde do Estado informou em nota.
Médico, major do Exército e bolsonarista fervoroso, Sandro Benites ficou conhecido após o segundo turno da eleição presidencial, quando, num palanque improvisado em frente ao Comando Militar do Oeste, pediu intervenção das Forças Armadas e chamou o presidente Lula de “ladrão e narcotraficante”. Moralista nas ruas, mas abonado no gabinete.
A gestão de Adriane, que corta na carne dos servidores de base e impõe teto de gastos, não poupa quando o assunto é premiar os seus. A secretária municipal de Saúde, Rosana Leite de Melo, também cedida do HR, segue o mesmo caminho, ou seja, foi contemplada com adicionais da chamada “folha secreta” desde que assumiu o cargo.
A desculpa é sempre a mesma: “compromisso com a moralidade, com a transparência e com Deus acima de tudo”. Mas o que se vê, de fato, é um sistema montado para privilegiar os que estão no topo, enquanto o grosso da máquina pública amarga reajustes congelados e metas fiscais draconianas.
O caso de Sandro Benites não é exceção, mas um símbolo. A gestão de Adriane parece ter transformado a fé em escudo para práticas que, se fossem adotadas por outro grupo político, estariam sendo tachadas de escândalo nacional.
A prefeitura, como de costume, silencia. Nenhuma justificativa foi apresentada sobre os bônus pagos ao presidente da Funesp, nem ao acúmulo de salários. Sandro Benites também não explicou como consegue trabalhar em dois lugares ao mesmo tempo, ou se apenas um deles exige presença física.
No púlpito, o discurso é contra o “roubo do dinheiro público”. Na prática, o que se vê é um sistema de bonificação seletiva e acúmulo indevido de recursos,
travestido de legalidade e ungido com orações duvidosas. Na Campo Grande de Adriane, a austeridade virou sermão para os pobres, enquanto a elite da fé política multiplica os peixes e os boletos pagos pelo povo.