
Campo Grande mantém um dos maiores níveis de subsídio ao transporte coletivo entre os sistemas analisados no País, mas entrega ônibus envelhecidos, atrasos, superlotação e terminais precários. O dinheiro público entra com força nas contas do sistema, enquanto a qualidade desaparece assim que o passageiro chega ao ponto.
Segundo o Anuário 2025 e 2026 da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, aproximadamente 35% do custo do transporte coletivo da Capital é sustentado por subsídios públicos. Campo Grande ocupa a 11ª posição entre os 24 sistemas avaliados e supera com folga a média nacional de 20%.
O contraste é escandaloso. Uma perícia judicial apontou que a idade média da frota ultrapassa o limite contratual de cinco anos desde 2015. O número de ônibus também ficou abaixo do mínimo de 575 veículos em 2018 e 2019, quando circularam 565 e 552 unidades, enquanto a frota de articulados despencou de 50 veículos em 2013 para apenas 13 em 2019.
A própria prefeita Adriane Lopes reconheceu que, dos cerca de 400 ônibus em circulação, 223 já deveriam ter sido substituídos por causa do tempo de uso. No próximo ano, esse número pode chegar a 300 veículos. A maior parte da frota avança para a inadequação enquanto o poder público continua irrigando o sistema com dinheiro da população.
A crise atingiu um patamar ainda mais grave quando a Prefeitura decretou a intervenção no transporte coletivo por até 180 dias, retirando temporariamente do Consórcio Guaicurus a gestão operacional, administrativa e financeira da concessão. A equipe interventora assumiu o controle do sistema para investigar falhas contratuais, examinar as contas, avaliar as condições da frota e decidir se o contrato será mantido, sancionado ou definitivamente rompido.
Em meio à intervenção, as quatro empresas que integram o Consórcio Guaicurus assinaram, em 18 de julho de 2026, contrato de venda para a MaasAdministração e Participações, ligada ao Grupo HP Mobilidade, em uma negociação estimada em R$ 170 milhões. A transferência do controle, contudo, ainda depende da autorização da Prefeitura e dos órgãos competentes. A população precisa saber quem assumirá a concessão, qual será a origem dos recursos e quais garantias concretas serão oferecidas para renovar a frota, reformar os terminais e impedir que a troca de donos seja apenas uma mudança de fachada em um sistema que continua sucateado.
O Município, a Agereg e a Agetran foram responsabilizados solidariamente pelo cumprimento da decisão. Para impedir que a ordem fosse tratada como mais uma recomendação ignorada, a Justiça fixou multa diária de R$ 300 mil em caso de descumprimento, limitada a 100 dias, valor que pode alcançar R$ 30 milhões, além da possibilidade de bloqueio de recursos públicos.
As suspeitas que cercam a concessão tornam a falta de transparência ainda mais intolerável. A ação que provocou a ordem judicial mencionou possível repasse de R$ 32 milhões a uma das empresas do grupo sem justificativa e a venda de um imóvel por mais de R$ 14,4 milhões sem demonstração da destinação ou do reinvestimento no sistema. São fatos que exigem apuração rigorosa, documentos abertos e respostas objetivas.
Não basta alegar que o subsídio evita uma tarifa ainda mais cara. O poder público precisa revelar quanto foi repassado, como cada pagamento foi calculado, quais obrigações o Consórcio Guaicurus cumpriu e quais penalidades foram aplicadas diante das falhas. Sem essas respostas, o subsídio deixa de parecer política pública e passa a alimentar uma legítima suspeita sobre o destino do dinheiro.
A população quer investigação imediata, independente e minuciosa sobre os repasses, as planilhas de custos, o cumprimento das metas contratuais e a fiscalização realizada pelo município. Também é indispensável uma auditoria capaz de rastrear cada real entregue ao sistema e confrontar os pagamentos com a frota e o serviço efetivamente disponibilizados.
Campo Grande não pode continuar despejando dinheiro público em um transporte que humilha diariamente quem depende dele. Subsídio elevado, frota sucateada e fiscalização omissa formam um alerta grave. Se a cidade paga tanto e recebe tão pouco, alguém precisa explicar onde o recurso foi parar e responder por cada irregularidade comprovada.