
Prefeita Adriane Lopes, ao lado do secretário municipal de Fazenda, Ulisses Rocha, e da vice-prefeita Camila (Foto: Maya Severino).
Depois de atravessar mais de 9,6 anos no poder, sendo 5,4 de vice-prefeita e o restante (quatro anos e oito meses) como titular do cargo, só agora Adriane Lopes (PP) parece estar descobrindo quais são os estragos causados por seu desgoverno.
Uma das evidências da tardia descoberta é a atrapalhada e dispersiva intervenção no transporte coletivo, trocando a substituindo a direção do grupo concessionário (Consórcio Guaicurus)por uma junta de interventores.
Ao lavar suas mãos, tentando fugir das obrigações institucionais e políticas que lhe competem, a prefeita talvez acreditasse que decretando a intervenção ficaria livre de qualquer tipo de culpa ou reclamação pelos percalços do transporte coletivo.
Assim, ela continuaria tentando fazer a população responsabilizar apenas o consórcio. Enganou-se. Além de não conseguir ir além da pose de inocente, Adriane fez da intervenção mais um dos vários tiros nos pés dados por sua gestão.

O disparo foi dado já nos primeiros dias da intervenção, quando começou a ser desenhada a oferta de compra do consórcio por um grupo de outro Estado, o Maas Administração e Participações Ltda, que por sinal tem simpatizantes bem instalados nos poderes políticos e com bases afetivas locais. Logo em seguida mais uma “novidade”, com a revelação de que o real interessado na aquisição seria o HP Mobilidade, de Goiânia. Assim, estabeleceu-se uma ardilosa confusão.
O negócio avançaria rapidamente, pois o Consórcio Guaicurus – segundo os interventores – estaria afundado nas dívidas e com graves problemas estruturais que o impedem de cumprir o contrato de concessão a contento.
Ora, isto não é novidade e a prefeita já sabe disso desde os dias em que ela era a vice de Marquinhos Trad (de 2017 a 2022). Sabia disso desde então e não tomou uma providência sequer, ainda que fosse ao menos cobrando as empresas a que fizessem o que está determinado nas cláusulas contratuais.

Precocidade
A negociação com a ‘Mass’ chamou atenção por um outro detalhe: a empresa foi criada em 16 de julho, apenas dois dias antes da assinatura do contrato de compra e venda, e registrada com capital social de R$ 10 mil para iniciar as suas atividades, oferecendo-se para um negócio próximo dos R$ 200 milhões.
No caso da HP Mobilidade, a venda, por depender da autorização da prefeita, vai melhorar as finanças dos atuais empresários do Consórcio Guaicurus. Entretanto, ninguém sabe o que será dos usuários, atirados à própria sorte por uma gestora que não quer gerir a cidade pela qual foi eleita.
Para botar banca, ela proclamou aos quatro ventos sua posição sobre a entrada da HP Mobilidade no município: “Para entrar em Campo Grande, precisa fazer uma proposta de mudança ou não vai entrar. Se não tiver troca de ônibus, melhoria de serviço prestado e ar-condicionado, não vai entrar”. Esta posição ilustrada por bravatas ninguém havia ouvido desde quando ela se tornou prefeita.

Ônibus circulando com prazo de validade vencido, insuficiência de ar condicionado e elevadores para cadeirantes, vácuos de linhas nos bairros e itinerários irregulares, pontos sem cobertura, ruas e terminais desassistidos e sem manutenção, tudo isso agravado pelo alto custo da passagem, atrasos e precariedade de espaço para os passageiros.
E a prefeita, que não viu nada disso ou simplesmente viu e ignorou, agora impõe condições que deveriam estar vigorando.