
A Prefeitura de Campo Grande decidiu entregar um contrato de R$ 11.715.171,66 à DaVita CG Serviços de Nefrologia, clínica mencionada em denúncias de contaminação de pacientes, reutilização de materiais descartáveis, falhas em insumos e tratamento desigual entre usuários. Sob a gestão de Adriane Lopes, nem mesmo uma coleção de reclamações tão graves foi suficiente para impor prudência antes de comprometer milhões de reais destinados à saúde pública.
O contrato prevê consultas, exames, diálise, hemodiálise, procedimentos cirúrgicos, órteses, próteses e materiais especiais de nefrologia. A despesa estimada chega a aproximadamente R$ 976,3 mil por mês durante doze meses. Não se trata de serviço periférico, mas de atendimento destinado a pacientes renais, pessoas vulneráveis que dependem de controle sanitário rigoroso para permanecer vivas.
As denúncias ganharam dimensão ainda mais alarmante depois que nove pacientes atendidos no turno da manhã foram intubados na Santa Casa e um deles morreu. Denunciantes relacionaram o episódio a uma possível infecção bacteriana causada pela reutilização de instrumentos. A gravidade do relato deveria ter acionado todos os mecanismos de cautela disponíveis na administração municipal.
Também foram divulgadas acusações de reutilização de materiais descartáveis empregados na diálise. Um paciente relatou que capilares de qualidade insatisfatória se rompiam durante a filtragem do sangue, obrigando pessoas a reiniciar o procedimento várias vezes. Em hemodiálise, falha de material não representa mero desconforto. Representa risco direto para quem já enfrenta uma condição clínica delicada.
Outras reclamações apontaram atrasos nas sessões, utilização mínima de recursos, ausência de refeitório adequado para acompanhantes e diferença no tratamento dispensado a pacientes particulares. Segundo um dos relatos, familiares precisavam almoçar sentados no chão da clínica. É o retrato de uma saúde que exige dignidade no discurso, mas entrega improviso e humilhação na prática.
O Ministério Público Estadual instaurou inquérito para apurar as condições da clínica e os fatos denunciados. Uma gestão responsável deveria redobrar a fiscalização, examinar os riscos e explicar detalhadamente por que considerou seguro contratar a empresa nessas circunstâncias.
A Prefeitura respondeu que a contratação ocorreu mediante credenciamento público e que a clínica teria atendido aos requisitos administrativos, técnicos, sanitários e assistenciais previstos no edital. Alegou ainda que a investigação, isoladamente, não impede a participação da empresa. A justificativa pode explicar a legalidade formal do procedimento, mas não responde à questão essencial sobre quais verificações concretas foram realizadas diante das denúncias.
Cumprir formalidades não encerra o dever de cuidado. Habilitação documental não garante material esterilizado, equipamento seguro, atendimento pontual ou tratamento digno. O poder público não pode agir como simples pagador de faturas. Precisa fiscalizar continuamente a execução do serviço, exigir indicadores de qualidade e suspender pagamentos sempre que houver descumprimento comprovado.
A DaVita declarou anteriormente que acompanhava e apurava os relatos, prestava assistência aos pacientes e mantinha compromisso com a segurança e a qualidade. A empresa tem direito de apresentar sua defesa, mas a população também tem direito a respostas verificáveis. É necessário esclarecer a origem das intercorrências, o protocolo de utilização dos materiais, os resultados das inspeções e as providências adotadas.
O mais puro absurdo está na naturalidade com que um contrato milionário avança cercado por dúvidas tão graves. Adriane Lopes não pode reduzir a saúde a edital, assinatura e pagamento mensal. Cada centavo público precisa corresponder a atendimento seguro e digno. Diante de denúncias envolvendo sangue, contaminação e morte, a obrigação da prefeita não é oferecer burocracia como resposta, mas garantir fiscalização implacável, transparência integral e respeito absoluto à vida.