
Lídio Lopes resolveu transformar a incompetência da própria esposa em uma epopeia administrativa. O deputado afirma que Adriane Lopes dará uma volta por cima assustadora, fará mais obras de pavimentação do que André Puccinelli e ainda escolherá quem comandará Campo Grande depois dela. Não é previsão política. É fantasia conjugal apresentada como se fosse realidade.
O problema é que a cidade descrita por Lídio só existe nos discursos do casal. Na Campo Grande real, moradores convivem com buracos, obras inacabadas, unidades de saúde sobrecarregadas, escolas paradas e promessas que envelhecem antes de sair do papel. Quanto pior fica a administração, mais grandiosa se torna a propaganda.
A tentativa de reescrever a história começa pelas finanças municipais. Adriane afirmou, ao assumir a prefeitura, que encontrou contas equilibradas e um pacote bilionário de obras. Agora, o marido sustenta que ela recebeu um município quebrado e sem condições de investir. As duas versões não cabem na mesma verdade.
Lídio também invoca o elevado gasto com pessoal para justificar a paralisia da gestão, mas esquece de contar a parte mais constrangedora. Os servidores municipais passaram quatro anos sem reajuste, enquanto o salário da prefeita subiu 66% e os subsídios dos secretários caminharam para uma correção de 159%. A austeridade, pelo visto, só vale para quem está distante do poder.
A comparação com André Puccinelli chega a ser um insulto à memória urbana de Campo Grande. Em oito anos, a cidade recebeu intervenções estruturantes como a Via Morena, o prolongamento da Avenida Norte Sul e importantes marginais de córregos. Lídio pretende convencer a população de que Adriane superará esse legado comprimindo em pouco tempo aquilo que não conseguiu entregar durante anos.
A promessa de pavimentar 700 quilômetros seria ousada até para uma administração eficiente. Na gestão Adriane, que não consegue concluir sequer dois quilômetros da revitalização da Avenida Ernesto Geisel, ela soa como deboche. Quem tropeça numa pequena travessia não pode posar de campeão de maratona.
O deputado ainda prevê o desaparecimento dos buracos como se crateras obedecessem a discursos eleitorais. Culpa a chuva, relativiza a omissão e ignora que a prefeitura chegou a suspender o serviço de reparos justamente durante a estiagem. Para Lídio, a culpa é sempre do clima, da herança ou do acaso, nunca da prefeita.
As obras paradas revelam aquilo que a propaganda tenta esconder. Centros de educação infantil, escolas, postos de saúde e outros equipamentos públicos permanecem incompletos, enquanto a Vila dos Idosos chegou a ser inaugurada sem funcionar e sem receber moradores. Fita cortada não substitui serviço entregue.
A obsessão de Lídio em anunciar que Adriane fará o sucessor também expõe o projeto de poder do casal. Antes mesmo de resolver os problemas da cidade, eles já discutem como conservar o comando da prefeitura. Campo Grande aparece como detalhe num plano político familiar em que o mandato parece patrimônio doméstico.
Lídio pode sonhar com recordes, asfalto e continuidade política, mas a população vive cercada pelas provas do fracasso. A fantasia de uma gestão promissora não resiste às ruas esburacadas, às obras empacadas e aos serviços públicos deteriorados. Quanto mais o marido tenta fabricar uma grande prefeita, mais evidencia a distância brutal entre a propaganda do casal Lopes e a cidade abandonada por eles.