Sesau entrega confiança máxima a quem acumula suspeitas

A Secretaria Municipal de Saúde conseguiu um feito raro, transformar relato de problema grave em trampolim de carreira. O servidor S.O. da S., que mexia com ambulâncias, aparece agora como nova estrela administrativa, depois de um boletim de ocorrência envolvendo nota de um milhão, que nem a ex-secretária, Rosana Leite, teria querido assinar, e que teria batido à porta do Ministério Público.

Em vez de afastamento e auditoria, a gestão decidiu presentear com poder. O servidor passa a cuidar de contratos de mecânica da frota de ambulâncias, de manutenção de equipamentos hospitalares e de ar condicionado, do almoxarifado e de outras frentes sensíveis da Sesau.

No pacote, entra também a chave do cofre do combustível, conhecida mina de ouro para quem confunde gestão pública com pista de arrancada. Em qualquer manual de integridade, concentrar tantas áreas em um único agente é abrir mão de controles e multiplicar riscos.

Enquanto a propaganda fala em eficiência, o corredor sussurra outra narrativa. Funcionários relatam clima de pânico e a frase de efeito que virou bordão, “quem manda agora sou eu”. Quando o medo substitui o procedimento, a transparência pede baixa.

Os mesmos relatos dão conta de um ritmo de vida acelerado. Teria surgido espaço de lazer em imóvel de aluguel e reforma de residência, como se prosperidade repentina fosse detalhe irrelevante. Nada contra quem reforma a própria casa, desde que as contas fechem e os contratos resistam a qualquer lupa.

Há quem garanta que as festas e brindes, com gente graúda, viraram rotina. Se amizade com poder fosse política pública, Campo Grande já estaria curada de todos os males. O que cura unidade de saúde é manutenção honesta e contrato público limpo.

A Sesau sabe que centro de saúde para de funcionar quando a engrenagem do suporte quebra. Peça de ambulância parada, equipamento sem manutenção, ar condicionado que não gira, almoxarifado desorganizado e combustível sem rastreio são sinônimos de paciente desassistido. Entregar tudo isso a quem coleciona ruído não é ousadia, é temeridade.

Se a história é exagero, uma boa auditoria resolve. Se a história é verdadeira, a mesma auditoria vira ponto de partida para responsabilização. De um jeito ou de outro, a administração que se preza não tem medo de abrir os armários e mostrar as notas.

Cabe ao controle interno, à corregedoria e ao Ministério Público separar boato de fato e número de fantasia. O serviço público não é camarote e contrato não é convite para celebração. Quem trabalha com saúde lida com recursos que salvam vidas, e cada centavo precisa ter origem e destino.

Campo Grande merece gestão que dispense bravatas e apresente comprovantes. Se houver grandeza, o poder se explica com papéis e protocolos.

Se houver silêncio, a cidade continuará suspeitando que a Sesau trocou o manual de integridade por um roteiro de improviso, e não há improviso que cure a falta de transparência.

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