O barracão do poder

O comitê eleitoral de Lídio Lopes funciona em um barracão apontado como irregular e clandestino, construído sobre 100% do lote localizado na Rua Lise Rose, 417. A estrutura ocupa um terreno adquirido pelo próprio deputado e fica ao lado de seu escritório político, formando um conjunto que agora exige explicações claras da Prefeitura de Campo Grande.

Os imóveis, porém, não podem ser confundidos. O escritório de Lídio está situado na quadra 46, lote 13. Já o barracão onde funciona o comitê eleitoral foi levantado na quadra 46, lote 14, terreno vizinho que, segundo a denúncia, teria sido completamente coberto pela construção.

A ocupação integral do lote levanta dúvidas graves sobre o cumprimento das regras urbanísticas, especialmente quanto à taxa máxima de ocupação, área mínima permeável, recuos obrigatórios e coeficiente de aproveitamento. Para o cidadão comum, qualquer avanço além do projeto aprovado pode render notificação, multa ou embargo. Para quem pertence ao núcleo do poder, a fiscalização precisa provar que usa a mesma régua.

O vereador Maicon Nogueira encaminhou o Ofício 86 de 2026 à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico e Sustentável (Semades). O documento solicita informações e cópia integral dos processos administrativos referentes ao imóvel da Rua Lise Rose, 417, com o objetivo de verificar a regularidade da edificação e das atividades realizadas no local.

A cobrança alcança projetos arquitetônicos, plantas, memoriais, documentos técnicos, pareceres, alvarás, licenças, autorizações especiais e eventuais procedimentos de regularização. A Semadestambém deverá informar a área construída aprovada, a área efetivamente ocupada e o percentual de permeabilidade exigido para o terreno.

Outro ponto decisivo é saber se houve autorização excepcional para ocupar área superior ao limite ordinário. O ofício questiona a existência de Termo de Compromisso Urbanístico para Taxa de Ocupação, pagamento de contrapartida, medidas compensatórias ou utilização de Outorga Onerosa do Direito de Construir. Se alguma flexibilização foi concedida, a população tem o direito de conhecer o fundamento legal e as condições do benefício.

A Prefeitura também precisa esclarecer se o barracão possui Alvará de Construção, Carta de Habite se, licença de localização e funcionamento e autorização para receber reuniões ou concentração de público. Como o espaço abriga um comitê eleitoral, não basta saber se a cobertura foi autorizada. É necessário verificar se a utilização atual corresponde ao uso oficialmente licenciado.

A situação se torna ainda mais delicada porque o imóvel pertence ao marido da prefeita Adriane Lopes. Cabe justamente à administração comandada por ela fiscalizar uma construção ligada diretamente à atividade política do casal. Essa proximidade exige rigor redobrado, porque qualquer silêncio ou tolerância indevida alimentará a suspeita de favorecimento.

O ofício confirma que existem dúvidas objetivas e relevantes a serem respondidas. A denúncia de ocupação total do lote, somada à utilização eleitoral do barracão, impede que o caso seja tratado como mera curiosidade privada.

Lídio Lopes e a Prefeitura precisam apresentar os documentos e demonstrar que o comitê respeita as mesmas exigências impostas aos demais moradores de Campo Grande. Se a construção estiver regular, as licenças mostrarão isso. Se não estiver, será preciso explicar como um barracão apontado como clandestino foi erguido ao lado do escritório do deputado e passou a funcionar como comitê eleitoral sem que a fiscalização municipal tomasse providências.

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