
Campo Grande começou a semana com uma bomba administrativa difícil de enterrar: relatório do Denasus, órgão ligado ao Ministério da Saúde, aponta fortes indícios de desvio ou utilização irregular de recursos públicos vinculados à saúde, no montante aproximado de R$ 156 milhões, e encaminha o caso a instâncias federais. Em linguagem burocrática de papel timbrado há quem leia: o problema deixou o escopo municipal e ganhou endereço em Brasília.
Trata-se de notícia que descamba rápido para o campo criminal e de controle. O documento foi despachado para o Ministério Público Federal, Tribunal de Contas da União e Polícia Federal. Não é boato de botequim, é ofício oficial que pede apuração. E, por isso, a política local não tem mais espaço para omissões, tem de responder às perguntas da União.
Ora, quem já vivia o drama do vácuo na Sesau, com a falta de um secretário titular substituído por um Comitê Gestor, agora enfrenta uma nova dimensão: deixar a secretaria sob uma administração colegiada não foi reformismo administrativo, foi escudo político. Quem aceitar o cargo corria o risco de topar com uma matemática que pode ser muito, muito incômoda.
O Comitê Gestor, criado em setembro de e liderado por Ivoni Kanaan Nabhan Pelegrinelli, tem função ampla: assinar contratos, revisar compras, acompanhar a execução contábil e avaliar riscos legais. Coisa bonita no papel. Na prática, serviu como documento de cobertura enquanto os auditores federais encontravam trilhas de uso irregular de verba. E agora essas trilhas fizeram o caso saltar para instâncias que investigam, auditaram e denunciam.
O relatório do Denasus, segundo fontes, fala em indícios de “uso irregular sem autorização do Legislativo”, expressão bonita para o que os mais diretos chamam de pedalada e desvio. E não espere versos soltos porque nos corredores sussurra-se que o alcance dos indícios toca nomes do primeiro escalão municipal. Mas atenção, indício não é condenação; é convite formal à investigação. Quem estiver envolvido terá o direito de se defender e a cidade terá o direito de ver a verdade.
Para além do embate entre quem acusa e quem se defende, há a questão humana, tais como serviços em colapso, filas, falta de insumos, equipamentos quebrados e pacientes que não podem esperar por investigações administrativas. Enquanto se troca o comando por comitês e se muda o palco das responsabilidades para Brasília, a população paga a conta todos os dias, e sem opção de apelo.
Se o Denasus pediu a federalização da apuração, espere ofícios circulando, delegados batendo à porta e auditores cruzando dados. O Ministério Público Federal e a Polícia Federal não mexem no escuro, eles querem provas, documentação, contratos e caminhos financeiros. E onde há indício nominal haverá convocação, busca e eventual responsabilização. Mas indícios exigem prova, e prova se colhe com método, não com grito.
No epicentro do cenário, a prefeita Adriane Lopes e o deputado Lídio Lopes (seu marido) assistem à dança de cadeiras que eles próprios fomentaram. A política do vácuo, transformada em comitê, perdeu agora a eficácia do amadorismo administrativo e ganhou o rigor da investigação federal. Se for comprovado o que o relatório sugere, não haverá prefácio político que salve reputações.
Até lá, a cidade permanece em estado de espera e de alerta. O rombo anunciado pelo Denasus não é só número, é potencial catalisador de responsabilizações, reações e, principalmente, de perguntas que ninguém mais poderá calar. Campo Grande merece respostas, e o resto do país merece ver como se lida, de fato, com um suposto saque à saúde pública.