Servidores prometem dar o troco nas urnas para Lídio Lopes

Adriane Lopes conseguiu transformar o funcionalismo público em um exército de indignados. A decisão de reduzir o funcionamento das secretarias, cortar horas e congelar rendas foi recebida como um ato de crueldade administrativa e covardia política. O decreto não economizou apenas recursos, mas também humanidade. E, se os servidores não podem devolver o golpe agora, prometem fazê-lo nas urnas, com juros, correção e o nome de Lídio Lopes na ponta da revolta.

A prefeita, que se gaba de ter milhões em caixa, decidiu “economizar” justamente sobre o bolso de quem carrega a máquina pública nas costas. O detalhe que revolta é a coincidência do calendário: bem no mês que antecede o Natal, data em que a solidariedade deveria falar mais alto. Mas em Campo Grande, sob a gestão de Adriane, quem fala mais alto é o silêncio — o dela e o dos secretários, que parecem tão desorientados quanto os servidores que ficaram sem rumo e sem salário completo.

Nos corredores das repartições, a palavra mais ouvida não é “contenção”, mas “vingança”. A classe trabalhadora municipal, cansada de ser tratada como peso morto, já definiu onde vai despejar sua frustração: no marido da prefeita, o deputado estadual Lídio Lopes, que busca reeleição. Afinal, se o voto é a única arma que o servidor tem, a mira já está calibrada. E desta vez, nem o discurso religioso vai servir de escudo para o casal governante.

Dizem que nem a própria prefeita sabe exatamente o que assinou. Pode até ser verdade porque a confusão é tamanha que nem os secretários sabem o que devem fazer. A prefeitura virou um labirinto de ordens contraditórias, planilhas de “ajuste” e rostos indignados. E no centro disso tudo, uma liderança que confunde fé com omissão e austeridade com perversidade.

A população, por sua vez, recebeu um apelo inusitado vindo dos próprios servidores: não adiram ao Refis. É uma forma simbólica de protesto. Se o município tem milhões, como repete a prefeita, por que jogar o funcionalismo na miséria? É a matemática da incoerência porque sobra dinheiro para contratos milionários, mas falta para quem trabalha.

O exemplo mais gritante é o da “amiga da família Lopes”, contratada para iluminar o Natal de Campo Grande por R$ 1,7 milhão. Enquanto os servidores terão um Natal apagado, a cidade vai brilhar artificialmente sob lâmpadas caras e consciências escuras. “Quem não tem dinheiro, não deve gastar”, lembram os manifestantes. E o recado é tão óbvio quanto o contraste entre o luxo das avenidas e a penúria dos contracheques.

A medida não foi apenas infeliz; foi desnecessária. Num momento em que a prefeita ostenta superávits, ela escolheu demonstrar força pisando no mais fraco. E, ao fazê-lo, uniu categorias inteiras em um mesmo sentimento de repulsa. Professores, administrativos, técnicos e até aliados silenciosos enxergam a decisão como a gota d’água de uma gestão marcada por improviso e indiferença.

Nem a ACP, sempre tão presente em outros embates, ousou se manifestar. O silêncio da associação dos professores foi interpretado como cumplicidade, o que aumentou ainda mais o clima de revolta. Enquanto isso, o governo municipal segue calado.

Nos grupos de servidores, o assunto é um só: “o troco vem em 2026”. A impossibilidade de enfrentar a prefeita, já que ela foi eleita no ano passado, será compensada com o voto de desagravo contra o marido, Lídio Lopes. O eleitorado já entendeu que se não dá para punir a prefeita, pune-se o projeto político que ela representa.

Adriane Lopes talvez tenha economizado alguns milhões com sua canetada, mas gastou o bem mais precioso que um governante pode ter — a confiança. E quando a população perde a confiança, não há decreto, reza ou marqueteiro que recupere. A cidade pode até brilhar neste Natal, mas é luz fria, de poste. Porque o calor humano da gestão se apagou, e o reflexo disso virá em 2026, no brilho das urnas que devolverão ao casal Lopes o mesmo silêncio que hoje oferecem à população.

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