Se os presos abrirem a boca vai faltar cela

A Operação Buraco Sem Fim não expôs apenas buracos nas ruas de Campo Grande. Expôs um esquema milionário que atravessou gestões, movimentou mais de R$ 113 milhões em contratos e terminou com servidores presos, dinheiro vivo apreendido e uma cidade inteira tentando entender para onde foi o dinheiro do asfalto.

Enquanto o Gaeco e o Gecoc apontam fraude em medições, pagamentos indevidos e enriquecimento ilícito, a prefeita Adriane Lopes preferiu terceirizar a culpa. Primeiro tentou jogar a responsabilidade exclusivamente na gestão de Marquinhos Trad, mesmo os contratos investigados alcançando também sua administração. Depois veio o discurso absurdo de que a população atrapalha, que a população faz buracos e que a prefeitura não consegue trabalhar.

É um deboche com quem passa diariamente por ruas destruídas, perde pneus, quebra carros e convive com acidentes provocados pela buraqueira. Durante anos o cidadão ouviu desculpas, viu operações tapa-buracos milionárias e continuou dirigindo em ruas que mais pareciam cenário de guerra.

Agora começa a surgir a explicação que faltava. O Ministério Público fala em organização criminosa atuando dentro da estrutura pública para fraudar contratos justamente do serviço que deveria recuperar as vias da Capital. O dinheiro saía. O asfalto desaparecia. E os buracos continuavam crescendo.

A prisão de Rudi Fiorese transformou a crise em terremoto político. Homem fortíssimo nos bastidores das obras públicas há anos, ele voltou ao centro de mais um escândalo envolvendo contratos milionários. Na casa de investigados foram encontrados pelo menos R$ 429 mil em dinheiro vivo. Só com um dos servidores havia R$ 233 mil guardados em espécie.

Além de Rudi Fiorese, foram presos Edivaldo Aquino Pereira, Mehdi Talayeh e Fernando de Souza Oliveira, todos ligados à estrutura investigada. No centro dos contratos aparece a Selco Engenharia, empresa que recebeu mais de R$ 113 milhões da Prefeitura de Campo Grande entre 2018 e 2025 para serviços de manutenção de vias pavimentadas. 

A exoneração dos investigados aconteceu apenas depois da operação explodir. Foi preciso o Gaeco entrar arrombando a porta, cumprir mandados, prender servidores e expor o escândalo para que providências administrativas finalmente aparecessem. Caso contrário, a sensação é de que tudo continuaria funcionando normalmente nos bastidores da máquina pública.

Agora existe um medo silencioso circulando nos corredores da política. O que vai acontecer quando os presos forem soltos? Porque prisão muda comportamento, muda alianças e muda silêncio.

Rudi Fiorese dificilmente entregará alguém. Sempre fez parte do núcleo duro das engrenagens do poder e jamais foi conhecido por abrir a boca. Mas os outros investigados são uma incógnita. E isso assusta muita gente.

Porque se resolverem falar tudo o que sabem, o estrago político pode ser muito maior do que o já revelado até agora. Quem conhece os bastidores sabe que contratos dessa dimensão não atravessam tantos anos, tantas gestões e tantos aditivos sem uma rede ampla de proteção e interesses.

Campo Grande descobriu que os buracos não estavam apenas no asfalto. Os buracos estavam dentro do próprio sistema e, principalmente, nos cofres públicos.

Compartilhe
Notícias Relacionadas
© 2024 O Consumidor News
Desenvolvido por André Garcia - www.conffi.com.br