Saúde bucal também entra na lista oficial do abandono administrativo

Campo Grande caminha para ter mais um serviço essencial parcialmente paralisado, confirmando que a crise na saúde pública deixou de ser exceção e virou método de gestão. Os dentistas da rede municipal anunciaram greve a partir desta quarta-feira, após sucessivos descumprimentos de obrigações básicas por parte da Prefeitura, que parece ter normalizado a precarização como política pública.

A decisão da categoria expõe o óbvio que a administração ignora. Não se trata de capricho corporativo, mas de reivindicações elementares como o reposicionamento no Plano de Cargos, Carreira e Remuneração e, sobretudo, condições mínimas de trabalho. Em outras palavras, os profissionais cobram apenas o direito de trabalhar com dignidade e atender a população sem improviso e sucata.

Segundo o Sindicato dos Odontologistas de Mato Grosso do Sul, a paralisação poderia ser ainda mais severa. A legislação exige a manutenção de 30% do atendimento, mas a categoria decidiu manter 50% dos serviços em funcionamento. O gesto demonstra responsabilidade social dos profissionais e, ao mesmo tempo, escancara o contraste com a postura da gestão municipal, que sequer consegue garantir insumos e equipamentos básicos.

O presidente do sindicato, David Chadid, afirma que a população já sofre com a falta de materiais e aparelhos nas unidades de saúde. A diferença é que, agora, o problema deixa de ser invisível e ganha contornos públicos e oficiais. Quando até quem tenta sustentar o sistema no limite anuncia paralisação, é porque a situação se tornou insustentável.

Mesmo com a greve prevista, os casos de urgência e emergência continuarão sendo atendidos, o que evita um colapso total imediato, mas não reduz a gravidade do cenário. A odontologia pública, que já opera no limite, caminha para funcionar em regime de sobrevivência, sustentada mais pelo esforço dos profissionais do que por qualquer ação efetiva do poder público.

O sindicato relata que tentou negociar diversas vezes com o município, sem sucesso. As propostas apresentadas não avançaram e não atenderam aos interesses da categoria, especialmente no que diz respeito ao cumprimento de decisões judiciais e à melhoria das condições de trabalho. O roteiro é conhecido: promessas genéricas e nenhuma solução concreta.

A paralisação anunciada soma-se a uma sequência de conflitos trabalhistas que transformam Campo Grande em um laboratório do caos administrativo. Transporte coletivo em alerta, saúde pressionada e agora a odontologia prestes a parar. A gestão consegue criar crises simultâneas em setores distintos, sempre com o mesmo ingrediente, que é a ausência de comando.

Para a população, o prejuízo é duplo. De um lado, a iminente redução no atendimento odontológico. De outro, a constatação de que serviços básicos

seguem sendo tratados como secundários. A greve não surge do nada, ela é o reflexo direto de uma política de descaso prolongado.

A cada nova paralisação anunciada, fica mais difícil sustentar o discurso de normalidade. Quando profissionais que lidam diariamente com dor, prevenção e qualidade de vida chegam ao ponto de anunciar greve, o sinal de alerta deveria ser máximo.

Se nada mudar até amanhã, Campo Grande entrará em mais um capítulo de desgaste institucional, com a Prefeitura assistindo de longe enquanto categorias essenciais se veem obrigadas a interromper serviços para serem ouvidas. A greve dos dentistas, anunciada para esta semana, não é um fato isolado, é apenas mais um retrato de uma gestão que transformou o básico em exceção e o caos em rotina.

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