
Quatro anos após a assinatura do contrato, a reforma da antiga rodoviária de Campo Grande se consolida como retrato da ineficiência administrativa, marcada por prazos elásticos, custos inflados e resultados praticamente inexistentes para a população que circula diariamente pelo centro da cidade.
Contratada em junho de 2022 por cerca de R$ 16 milhões, a obra foi entregue à empresa NXS Engenharia Ltda, com a promessa de requalificar o Terminal Rodoviário Heitor Laburu e transformar o espaço em um novo equipamento público, capaz de abrigar órgãos municipais e impulsionar a revitalização de uma área estratégica da Capital.
Na prática, porém, o projeto se perdeu em uma sequência interminável de aditivos contratuais. Já são oito alterações formais, que acrescentaram mais de R$ 7,5 milhões ao contrato original, elevando o custo final para R$ 24,1 milhões, enquanto a obra segue em ritmo lento, sem transparência e sem entregar à cidade o retorno prometido.
O contrato, agora às portas de completar quatro anos, foi novamente prorrogado por mais 180 dias, com previsão de encerramento apenas em junho de 2026. O novo prazo reforça a percepção de obra sem fim e evidencia a fragilidade do planejamento e da fiscalização por parte do poder público.
O cenário se agrava ainda mais pelo fato de que a reforma contempla apenas 1/3 do terminal, correspondente à área pertencente ao município. A maior parte do complexo segue sob domínio da iniciativa privada, o que escancara uma intervenção fragmentada, incapaz de enfrentar o abandono de um espaço que deveria cumprir função urbana e social relevante no centro da cidade.
Enquanto a obra pública se arrasta, um grupo privado passou a movimentar o local por interesse econômico direto. A Ecossistema Dakila, ligada ao empresário Urandi Fernandes de Oliveira, anunciou planos de investir entre R$ 50 milhões e R$ 55 milhões para explorar comercialmente a antiga rodoviária, abandonada há mais de 15 anos.
O projeto prevê a transformação do espaço em um mini shopping, com expectativa de geração de empregos e ativação econômica da área. A proposta, embora privada, avança em meio ao vácuo deixado pelo poder público, que não conseguiu concluir nem sequer a parte do terminal sob sua responsabilidade.
Segundo informações divulgadas, o grupo iniciou a aquisição de salas comerciais no prédio, tendo comprado 23 unidades e negociando outras oito, com a meta de alcançar cerca de 60% a 65% dos espaços existentes. O investimento inicial nessa etapa gira em torno de R$ 3 milhões.
Se, por um lado, a prefeitura acumula aditivos, prorroga prazos e eleva custos sem entregar resultados, por outro, o espaço público degradado passa a ser ocupado por interesses privados, sem que haja clareza sobre o papel do município na requalificação integral da área.
O problema central, no entanto, não está na iniciativa privada buscar oportunidades, mas na incapacidade do poder público de cumprir sua própria parte. A antiga rodoviária virou exemplo de como a falta de planejamento, fiscalização e execução eficiente abre espaço para soluções improvisadas.
Com isso, o que deveria ser uma obra estruturante para o centro de Campo Grande se transformou em um contrato prolongado, caro e incompleto. A cidade segue assistindo a um patrimônio público se deteriorar, enquanto milhões são consumidos em aditivos e prorrogações, sem que a revitalização prometida saia efetivamente do papel.