Ranking revela saneamento de fachada em Campo Grande

Campo Grande despencou 20 posições no ranking nacional de saneamento básico. A cidade que até pouco tempo aparecia no 17º lugar agora amarga a 37ª colocação, segundo levantamento do Instituto Trata Brasil. A campeã do marketing da água encanada e do esgoto tratado, Águas Guariroba, não perdeu tempo em culpar a metodologia da pesquisa, porque, claro, o problema nunca é da empresa, é sempre da régua que mede.

A concessionária, que cobra caro todo mês dos campo-grandenses, apressou-se em soltar nota de contestação, dizendo que as mudanças na forma de avaliação distorceram os resultados. É a velha tática do “não é que eu esteja mal, é que o espelho está quebrado”.

Segundo o Trata Brasil, a queda de Campo Grande foi uma das mais bruscas do país, resultado de retrocessos no atendimento e de um aumento no número de consumidores sem contrapartida na qualidade do serviço. Mas para a Águas Guariroba, as contas não fecham porque as pessoas lavam calçadas e molham jardins. Em outras palavras, a culpa não é da empresa, é do campo-grandense que insiste em viver a vida real.

A concessionária ainda se orgulha em dizer que 100% da área urbana tem água tratada, como se a zona rural fosse território estrangeiro. Ora, o contrato não a obriga, logo, não existe problema. Uma lógica conveniente porque quando é para cobrar, não há fronteiras; quando é para atender, o mapa encolhe.

No quesito esgoto, o discurso é igualmente confortável. O estudo considera a quantidade de água distribuída como se toda virasse esgoto, e isso, segundo a empresa, não corresponde à realidade. Afinal, parte da água desaparece no chão, escorre pela calçada ou evapora. Uma explicação digna de manual de desculpas criativas porque se a água some, a culpa não é da gestão, é da natureza.

O mais curioso é que, apesar dos números vergonhosos, os investimentos alardeados são de dar inveja a qualquer capital. Entre 2019 e 2023, segundo a própria Águas Guariroba, foram R$ 877 milhões aplicados no setor, algo como R$ 195 por habitante, muito acima da média nacional. Ou seja, muito dinheiro gasto, mas resultados que jogam a cidade ladeira abaixo no ranking. Investimento que não aparece para o consumidor é como esgoto mal tratado: fede de longe.

A queda de Campo Grande não é detalhe estatístico, é retrato de uma cidade que paga caro e recebe pouco. A propaganda da concessionária fala em 94% de cobertura de esgoto, mas o Trata Brasil mostra que a realidade é mais modesta, com índices abaixo da meta considerada ideal. A diferença entre o número oficial e o número da empresa é quase tão grande quanto a paciência da população com as tarifas.

A Águas Guariroba prefere se apegar a justificativas técnicas, mas não consegue responder a uma pergunta simples: como é que uma cidade que investe tanto em saneamento despenca 20 posições em apenas um ano? A resposta, talvez, esteja na distância entre os relatórios coloridos da empresa e a experiência diária de quem abre a torneira ou convive com esgoto estourado na porta de casa.

O Instituto Trata Brasil não inventou os dados, apenas os organizou de acordo com critérios claros. Se Campo Grande caiu, não foi por má vontade de pesquisadores, mas porque a qualidade do serviço oferecido não acompanha os discursos de eficiência. A capital se tornou exemplo de como números bonitos em releases não resistem à realidade.

E enquanto a concessionária terceiriza culpas e coleciona desculpas, Campo Grande coleciona posições negativas. Se o ranking fosse de criatividade para justificar fracassos, talvez a Águas Guariroba ocupasse o topo. Mas, no que realmente importa, que é o saneamento básico de qualidade, a cidade segue descendo pelo ralo.

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