
A prefeitura de Campo Grande inaugurou, nesta segunda-feira, 27 de outubro de 2025, a “versão 2.0” da sua própria fala: aquilo que na sexta (24) seria pago ao Consórcio Guaicurus com dinheiro da Saúde virou, subitamente, apenas repasse de vale-transporte descontado em folha de servidores da Sesau. Milagre de comunicação ou revisão de consciência?
O Conselho Municipal de Saúde precisou bater à porta para lembrar o óbvio ululante: Fundo Municipal de Saúde não é caixa eletrônico para tampar buraco de subsídio de ônibus, é verba vinculada a Ações e Serviços Públicos de Saúde. Parece simples, mas sempre aparece alguém para ensinar contabilidade criativa com orçamento alheio.
Na mesa, a prefeitura dizia que R$ 1,03 milhão sairiam do FMS para “regularizar contas” com o Consórcio; após o puxão de orelha, ficou combinado que era só o vale-transporte de servidores, aquele desconto no olerite que repassa o que é do trabalhador para a concessionária. A matemática mudou ou mudou o discurso?
Para apimentar, teve a tese das “gratuidades” — idosos, pessoas com deficiência, mães atípicas — como justificativa para meter a mão no cofre da Saúde. A regra de ouro do SUS, porém, não é ambígua: custeio de transporte público urbano não vira gasto em saúde por decreto de humor. Política setorial se paga com sua própria rubrica.
Mesmo quando tentam sofisticar dizendo que é para levar paciente renal, ostomizado ou pessoa vivendo com HIV, a premissa desaba: deslocamento não é atenção, vigilância, prevenção ou recuperação em saúde. É logística. E logística de sistema de transporte não se equilibra confiscando a prioridade do SUS.
O detalhe que a gestão gostaria de varrer para debaixo do tapete: estamos no meio de uma crise na rede municipal, com atraso a servidores e fornecedores, falta de antibióticos, analgésicos e anti-inflamatórios, além de insumos hospitalares, laboratoriais e odontológicos. Queriam usar o dinheiro do remédio para empurrar o ônibus ladeira acima.
Enquanto isso, o imbróglio com o Consórcio Guaicurus já produziu seus próprios capítulos: na quarta (22), teve paralisação de cerca de três horas por atraso de vale aos motoristas, e só a correria de última hora despejando R$ 2,3 milhões acalmou o cenário e desarmou a greve prometida para terça (28). Gestão por espasmo, paga-e-apaga.
A cereja do bolo veio na nota oficial desta segunda: “estamos em dia”, mas há um processo de R$ 1,07 milhão “em tramitação”, com despesas de “vários órgãos, inclusive da Saúde”, a ser concluído “nos próximos dias”. Em resumo: tudo certo, faltando só pagar; e paga-se com várias fontes, inclusive aquela que disseram que não usariam. Transparência versão looping.
Diante do samba de versões, o CMS recomendou suspender qualquer pagamento ao Consórcio via FMS e já fala em provocar Ministério Público, Tribunal de Contas e quem mais for preciso para apurar eventual desvio de finalidade. Quando o básico falta no posto, cada centavo carimbado tem dono — e não é a catraca.
No fim, fica a lição que a administração resiste em aprender: saúde não é cofre de fim de mês, e orçamento vinculado não é elástico. Dá para maquiar discurso; o que não dá é transformar comprimido em combustível.