Promoção à moda da casa: quando a porta da rua leva direto ao TCE

Não é todo dia que alguém é exonerado antes do café da manhã e, ainda assim, vai dormir com um salário maior. Mas, em Mato Grosso do Sul, a lógica administrativa tem seus próprios encantos e, claro, seus próprios personagens. Nivaldo Thiago Filho de Souza, por exemplo, conseguiu transformar uma exoneração na Casa Civil em trampolim para um cargo ainda mais prestigioso no Tribunal de Contas do Estado. Nasceu para brilhar, diriam alguns.

A trajetória é simples, direta e impressionante: saiu de um salário bruto de R$ 30,7 mil para outro de R$ 40,4 mil. Tudo no mesmo dia, sem intervalo para respirar. Se isso não é uma promoção, falta inventarem outra palavra. Acrescente-se auxílios de toda natureza — transporte, alimentação, saúde e até educação infantil — e o pacote fica ainda mais reconfortante. É a meritocracia sendo aplicada com uma precisão quase matemática, ainda que pouco compreendida pela população comum.

O motivo da ascensão meteórica? Confiança. Não a do contribuinte, claro, mas a do mais novo conselheiro, Sérgio de Paula. Ocorre que Nivaldo é, digamos, o braço direito do conselheiro. Num país onde confiança costuma ser requisito apenas para empréstimos entre amigos, aqui ela abre portas mais valiosas: as de um gabinete no TCE.

Inclusive, Sérgio fez questão de minimizar um detalhe miúdo: o processo criminal que envolve Nivaldo por um acidente ocorrido em 2021. Um pequeno episódio trágico, classificado como “fatalidade”. Afinal, quem nunca se envolveu em um acidente de lancha pilotada sem habilitação, após ingerir bebida alcoólica e acima da velocidade? Acontece nas melhores famílias, diriam alguns. Ou, pelo menos, nas mais bem posicionadas.

O Ministério Público, por sua vez, tem uma visão ligeiramente menos poética. Segundo a denúncia, Nivaldo pilotava a famosa lancha Mamba Negra quando colidiu com outra embarcação, resultando na morte de Carlos Américo Duarte e deixando dois homens feridos. Há também o registro de que ele teria deixado o local sem prestar socorro e se recusado ao teste de alcoolemia. Mas nada disso parece ter atrapalhado o retorno triunfal ao serviço público.

A Justiça, sempre com sua lentidão coreografada, determinou que o caso seja julgado pelo Tribunal do Júri. Ainda sem data prevista, como manda a tradição. Enquanto isso, vida que segue. E salário que sobe. No processo, Nivaldo apresentou defesa: nega alta velocidade, nega intenção, afirma que tentou ajudar. As versões estão postas, o julgamento ainda virá. Mas o contracheque não espera.

É fascinante observar como as engrenagens do Estado funcionam quando bem lubrificadas pelas relações pessoais. Nivaldo sai de um setor e entra em outro, sempre com portas escancaradas. A exoneração, nesse caso, não passa de uma formalidade burocrática, quase um ritual de passagem. Afinal, quando alguém está “de confiança”, tudo se ajeita.

O que impressiona — ou deprime, conforme o humor do leitor — é a naturalidade com que tudo isso acontece. O servidor responde por homicídio simples e duas tentativas de homicídio, mas nada impede seu avanço administrativo. O processo corre, a promoção também. A justiça caminha, mas o salário corre. No fim, cada um segue seu ritmo.

Para a população que observa de longe, resta a velha sensação de que certas carreiras públicas lembram videogames: quanto mais fases complicadas o personagem enfrenta, maior o prêmio ao final. Nivaldo, ao que parece, destravou um bônus raro: ser exonerado e imediatamente ganhar R$ 10 mil a mais por mês.

E assim seguimos, com ironia, com espanto e com a certeza de que, no fundo, a promoção não é surpresa para ninguém. Surpresa seria se não acontecesse. Porque, no Estado, quem cai para cima nunca machuca o próprio currículo, apenas o bolso de quem paga a conta.

Compartilhe
Notícias Relacionadas
© 2024 O Consumidor News
Desenvolvido por André Garcia - www.conffi.com.br