
Durante a Expogrande, a prefeita Adriane Lopes anunciou a intenção de executar 700 quilômetros de asfalto com um orçamento de R$ 500 milhões. A fala, carregada de otimismo, ignora um detalhe essencial que não pode ser escondido por aplausos ou entusiasmo momentâneo. A matemática não fecha.
Basta um cálculo simples para revelar o tamanho do problema. Considerando o custo médio atual de aproximadamente R$ 2,5 milhões por quilômetro de pavimentação, o valor anunciado seria suficiente para pouco mais de 200 quilômetros, isso em um cenário otimista. A distância entre o que foi prometido e o que pode ser entregue é grande demais para ser tratada como mero detalhe técnico.
A situação se agrava quando se observa que parte dos recursos disponíveis sequer representa dinheiro em caixa. O município foi autorizado a contratar cerca de R$ 136 milhões junto à Caixa Econômica Federal para obras em 33 bairros. Trata-se de financiamento, com garantia da União, o que significa que a cidade está assumindo uma dívida que precisará ser paga até 2028.
Esse ponto muda completamente o cenário apresentado à população. Não se trata de investimento robusto fruto de arrecadação eficiente ou planejamento estratégico. É endividamento público, com impacto direto nas contas futuras do município. A promessa de centenas de quilômetros de asfalto passa a ter um peso ainda maior quando se considera que o recurso é limitado e condicionado.
Ao vender um projeto dessa magnitude sem o devido lastro financeiro, a gestão corre o risco de transformar expectativa em frustração coletiva. Não é a primeira vez que números grandiosos são apresentados como solução mágica para problemas estruturais antigos. O que se vê, na prática, é uma repetição de discursos que não se sustentam diante da realidade orçamentária.
A tentativa de reconfigurar narrativas também chama atenção. Ao ignorar gestões recentes e embaralhar referências políticas, Adriane Lopes busca criar uma linha do tempo conveniente, como se o passado pudesse ser apagado ou reescrito conforme a necessidade do momento. Mas a cidade tem memória, e a população não é desinformada.
Enquanto isso, os problemas continuam presentes no dia a dia. Ruas sem pavimentação, bairros com infraestrutura precária e regiões inteiras aguardando por soluções que nunca chegam. A promessa de 700 quilômetros soa distante para quem enfrenta lama na porta de casa em dias de chuva e poeira constante nos períodos de seca.
O uso de números inflados como ferramenta política pode até funcionar no curto prazo, mas cobra um preço alto quando confrontado com a realidade. A credibilidade de uma gestão não se constrói com projeções irreais, mas com entregas. E quando a conta não fecha, o desgaste é inevitável.
A população de Campo Grande não precisa de anúncios grandiosos e mentirosos. Precisa de clareza, responsabilidade e compromisso com aquilo que é possível executar. Planejamento sério não se faz com promessas exageradas e fantasiosas, mas com metas alcançáveis e transparência nos números.
Afinal, o que está em jogo não é apenas a pavimentação de ruas, mas a confiança de uma cidade inteira. E essa, diferente do asfalto prometido, não pode ser construída com números que não resistem a uma simples conta.