Prefeitura recorre a consultoria após secretária deixar Sefaz em meio à crise

No momento em que as contas públicas agonizam e o município aciona o temido gatilho fiscal, a secretária de Fazenda simplesmente some de cena. Márcia Helena Hokama tirou licença no dia 25 de novembro e só promete reaparecer no dia 10, deixando para trás uma cidade que consome 99,94% de tudo que arrecada apenas para manter a máquina respirando por aparelhos. Antes de partir, porém, fez seu último gesto administrativo liberando quase R$ 800 mil em crédito suplementar, porque nenhuma crise é grande demais para impedir despesas não previstas.

Enquanto isso, a dança das cadeiras na Sefaz continua. Duas servidoras foram demitidas, reforçando a sensação de que a gestão tenta reorganizar o tabuleiro às pressas, como quem recolhe peças depois que o jogo já acabou. E quando a titular se ausenta, a prefeitura recorre a reforços externos. Agora, quem tenta salvar Campo Grande do colapso não é a equipe interna, mas uma auditora aposentada do Tesouro Nacional e um contador de Brasília, contratados por uma empresa que nasceu este ano. Porque nada mais diz “planejamento financeiro sólido” como pedir socorro a uma consultoria recém-criada em outro estado.

A coincidência perfeita entre a licença da secretária e a contratação da consultoria não surpreende ninguém. Quando a crise aperta, a gestão corre para buscar soluções prontas, mesmo que comece por admitir, implicitamente, que perdeu o controle sobre a própria arrecadação. A empresa contratada promete diagnosticar a saúde fiscal do município e modernizar a gestão tributária. O curioso é que, até aqui, quem mais precisa de modernização é a própria Prefeitura, que insiste em fingir que está tudo sob controle enquanto a cidade mergulha em números alarmantes.

Márcia Hokama não enfrenta pressão apenas agora. A secretária já vinha acumulando desgaste público, seja pelos altos salários que vieram à tona no ano passado, seja pelas crises do transporte e da saúde que se empilharam sob sua gestão. O ápice da turbulência aconteceu quando ela simplesmente ignorou uma convocação da Câmara Municipal para explicar a situação fiscal da capital. Alegou problemas de saúde depois, mas a impressão que ficou foi a de uma gestora que abandona o barco quando o mar começa a revoltar.

Informações de bastidores apontam que a secretária enfrenta problemas de saúde mental relacionados à sobrecarga e ao enfrentamento constante. Não é difícil acreditar. O que é difícil é entender como a Prefeitura chegou a esse ponto sem um plano de contingência minimamente estruturado. A resposta, como sempre, está nas escolhas políticas e administrativas equivocadas que se acumulam desde o início do mandato.

Os números do Relatório Resumido da Execução Orçamentária escancaram a gravidade da situação. Em doze meses, a máquina pública consumiu praticamente tudo que arrecadou. Para cada R$ 100,00 recebidos, a prefeitura gastou R$ 99,94 apenas para manter seu funcionamento básico. Nada sobra para investimento, melhoria ou qualquer tentativa de desenvolvimento. É

administração pública na UTI, recebendo choque fiscal para evitar uma parada irreversível.

O acionamento do gatilho fiscal previsto na Constituição é a comprovação definitiva de que a gestão perdeu o controle. Quando as despesas obrigatórias encostam perigosamente no limite, o município é obrigado a cortar gastos, restringir investimentos e operar com severas limitações. Em Campo Grande, a medida não só foi ativada, como está sendo acompanhada bimestralmente. A crise é profunda demais para ser ignorada e longa demais para ser resolvida com discursos.

A contenção de despesas adotada desde março e prorrogada até dezembro é mais uma admissão silenciosa de fracasso. Não se trata de um ajuste técnico, mas de um improviso contínuo. A cidade não tem como crescer, investir ou respirar enquanto a prefeitura corre atrás do próprio rabo tentando evitar que a conta estoure de vez.

No fim das contas, a crise atual expõe aquilo que todos já perceberam. Falta planejamento, falta transparência e falta comando. A prefeita Adriane Lopes insiste em fingir que tem controle sobre a situação, mas cada nova notícia revela o contrário. A cidade não está sendo governada. Está sendo administrada no susto, na improvisação e na esperança de que ninguém repare no rombo que aumenta a cada bimestre.

E enquanto a secretária se recupera longe dos holofotes, a cidade fica aqui, esperando que alguém apareça para explicar como Campo Grande chegou ao fundo do poço fiscal sem que ninguém tenha percebido a queda.

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