Prefeitura promete milagre urbano enquanto gasta milhões onde ninguém passa

Enquanto buracos se multiplicam nas ruas da cidade como coelhos em época fértil, a Prefeitura de Campo Grande tenta nos convencer de que encontrou a fórmula mágica para a pavimentação instantânea: nada menos que 2.000 buracos tapados por dia. É isso mesmo. Se você piscou, provavelmente um buraco já foi tapado. Ou ao menos, foi o que disseram.

A conta, porém, não fecha nem com boa vontade. Considerando o tempo médio necessário para tapar um buraco (de 15 a 20 minutos), seriam necessárias pelo menos 63 equipes completas atuando simultaneamente em diferentes regiões da cidade. Cada equipe equipada com caminhão, compactador, sinalização, operadores, ajudantes e toneladas de massa asfáltica mantida a mais de 110°C. Uma operação quase militar ou, mais honestamente, uma ficção digna de marketing eleitoral.

Fazendo as contas, essa meta insana renderia algo em torno de 8 quilômetros de tapa-buraco por mês. O que, na ponta do lápis, custaria entre R$ 5 e R$ 7,5 milhões mensais. E isso sem contar dias chuvosos, retrabalhos, buracos reincidentes ou simplesmente ruas que viram colchas de retalhos.

Agora corte para outra cena: uma estrada rural de 13,3 quilômetros, entre os bairros Nova Campo Grande e Santa Emília, recém-inaugurada com pompa, duplicação, ciclovia, calçadas e o melhor asfalto possível. Preço da brincadeira? R$ 84,6 milhões. Trânsito local? Quase nulo. Residências? Contam-se nos dedos.

Essa obra, que mais parece vitrine de licitação do que resposta a demandas populares, custaria o suficiente para manter a milagrosa operação urbana de tapa-buracos por mais de 10 meses consecutivos. Isso se a meta diária fosse mesmo atingida. Spoiler: não é.

Enquanto isso, nos bairros de verdade, onde a população vive, trabalha e paga IPTU religiosamente, a realidade é feita de desvio de cratera, salto ornamental sobre poças e pneus destruídos. Em algumas regiões, o asfalto não existe; em outras, é só um rumor do passado.

A pergunta que grita do asfalto esburacado é simples: quem está escolhendo as prioridades? Porque o problema não é só o buraco no chão, é o buraco na lógica da gestão pública. Fazer asfalto onde não há gente é como inaugurar hospital sem paciente: bonito na foto, inútil na prática.

Fácil é anunciar meta. Difícil é mostrar resultado. Ainda mais quando a cidade está cansada de promessa quente aplicada sobre buraco frio. A Campo Grande real precisa mais do que manchetes. Precisa de planejamento, transparência e respeito. Porque de milagre, a população já está cheia. O que falta mesmo é vergonha na cara.

Compartilhe
Notícias Relacionadas
© 2024 O Consumidor News
Desenvolvido por André Garcia - www.conffi.com.br