
A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), protagoniza mais um episódio constrangedor ao recorrer à Justiça para transferir duas multas de trânsito para o nome de um motorista particular, residente a mais de 400 quilômetros da Capital, e ainda pedir sigilo sobre o processo, na tentativa de evitar desgaste público. As infrações, uma por avanço de sinal vermelho e outra por transitar em faixa exclusiva de ônibus, somam quase R$ 300, mas o prejuízo político pode ser bem maior.
As multas foram registradas em fevereiro e abril deste ano, envolvendo o veículo pessoal da prefeita, uma Toyota Hilux SWSRX. Na primeira, Adriane foi flagrada pelo radar às 20h13 do dia 22 de fevereiro de 2023, passando no sinal vermelho na Avenida Costa e Silva, no Jardim Progresso. A segunda infração foi cometida na manhã de 12 de abril deste ano, na Avenida Duque de Caxias, quando a prefeita transitou irregularmente na faixa exclusiva do transporte coletivo.
Por ter perdido o prazo para indicar administrativamente o real condutor do veículo, conforme previsto no Código de Trânsito Brasileiro, Adriane decidiu acionar o Judiciário. No processo, ela alega que o responsável pelas infrações foi Antônio Carlos Moreira da Rocha Júnior, seu motorista particular à época, que mora em Iguatemi, a 412 km da Capital. O homem assinou uma declaração assumindo as multas — um gesto que, no mínimo, levanta questionamentos sobre conveniências e coerência.
O mais surpreendente, no entanto, é que além de pedir que as infrações sejam retiradas de sua carteira de habilitação, Adriane também solicita que o juiz decrete segredo de Justiça no processo. O motivo? Evitar, segundo ela, que o caso seja usado politicamente e se torne “matéria de exploração midiática”. A prefeita alega sofrer ataques em redes sociais e diz que a publicidade do processo comprometeria sua imagem e honra — valores que, aparentemente, pesam mais que o princípio da transparência administrativa.
A justificativa de Adriane inclui ainda a menção à CPI dos Transportes, que tramita na Câmara Municipal e investiga o Consórcio Guaicurus, do qual a Agetran, autarquia subordinada à prefeita, também é alvo. O pedido de segredo de Justiça é uma tentativa explícita de fugir da responsabilidade política, confundindo interesse público com conveniência pessoal. Ao invés de assumir os próprios atos, a prefeita se esconde atrás da toga.
Não é a primeira vez que um integrante da cúpula política de Mato Grosso do Sul tenta manipular infrações de trânsito. Casos anteriores, como o do ex-senador Pedro Chaves, mostram uma preocupante tradição de uso da influência para apagar multas ou “reorganizar” os pontos na CNH. A diferença agora é que, ao invés de resolver a questão nos bastidores, Adriane quer usar o Judiciário como blindagem institucional.
O valor das multas, de pouco mais de R$ 293,47 cada, é irrisório diante do orçamento milionário sob a responsabilidade da prefeita. O problema, portanto, não é o dinheiro, mas o princípio: o que se vê é uma gestora que exige responsabilidade do cidadão, mas tenta escapar da própria. Se a prefeita falhou
ao perder o prazo, que arque com as consequências, como qualquer outro condutor comum faria.
A tentativa de transformar um caso simples de infração de trânsito em sigilo judicial é um tapa na cara da transparência pública. A população tem o direito de saber como se comporta quem ocupa o cargo mais alto do Executivo municipal, até mesmo (ou especialmente) quando infringe regras básicas de convivência urbana.
O juiz José Henrique Kaster Franco, da 6ª Vara do Juizado Especial da Fazenda Pública, ainda não decidiu sobre o pedido de sigilo e nem sobre a transferência dos pontos. Mas a sociedade já decidiu uma coisa: quem não respeita o sinal vermelho da lei, também não deveria ignorar o alerta da ética pública.