
Em meio à pior crise financeira já enfrentada pela Prefeitura de Campo Grande — aquela que impede reajuste aos servidores, paralisa o tapa-buracos e lota os postos de saúde sem médicos nem medicamentos — a prefeita Adriane Lopes (PP) surpreende mais uma vez. Agora, resolveu dizer “não, obrigada” ao Governo Federal e excluiu sete obras de escolas municipais do Pacto Nacional pela Retomada de Obras da Educação Básica. Sim, rejeitou ajuda para concluir unidades escolares em plena escassez de recursos. Porque quando se trata de educação, a atual gestão prefere improvisar com “recursos próprios”, mesmo que esses próprios recursos estejam em crise declarada desde março.
Campo Grande lidera o ranking da exclusão no Mato Grosso do Sul. Segundo levantamento da Confederação Nacional dos Municípios, nenhuma outra cidade do Estado deixou tantos projetos educacionais de fora do programa federal quanto a Capital. Enquanto outros municípios correm atrás de parcerias para viabilizar obras paradas, Adriane parece mais interessada em manter distância do FNDE e do Planalto, como se orgulho partidário pagasse obra, formasse criança ou garantisse creche funcionando.
A justificativa oficial é uma tal de “repactuação”, segundo a Secretaria Municipal de Educação. Mas, na prática, a escolha por cortar a verba federal e assumir os custos sozinha é como recusar água no deserto por orgulho político. E ainda vender isso como eficiência administrativa, em um município onde até a limpeza dos postos de saúde anda por conta dos próprios servidores.
Nos bairros Anache, Popular, São Conrado e Oliveira 3, as escolas excluídas do pacto serão “concluídas com recursos próprios”. A mesma prefeitura que alega não ter dinheiro para repor a inflação dos salários há três anos, agora banca obra que poderia ser paga com verba federal. Ou seja, Adriane aperta o cinto dos servidores para folgar o dela diante do Governo Lula. Afinal, manter-se politicamente distante do PT vale mais do que concluir uma escola com agilidade, mesmo que isso atrase o futuro de centenas de crianças.
O decreto de contenção de despesas, em vigor desde março, foi usado para suspender gratificações, adicionais e direitos adquiridos dos servidores. A justificativa? Crise. Mas aparentemente, essa crise é bem seletiva: ela serve para congelar salários, mas não para evitar decisões ideológicas que sabotam a gestão pública com ares de bravata.
A prefeita que concedeu a si mesma um aumento de 66% no salário também faz questão de mostrar que consegue tocar obras sem depender de Brasília, mesmo que à custa do bem-estar da população. Isso, claro, não vale para o pagamento das empresas do tapa-buracos, que estão paralisadas por falta de repasse. Mas quando é para bater no peito e dizer que está “concluindo com recursos próprios”, Adriane faz questão de tirar a obra da fila federal.
A lógica é clara: é melhor demorar o dobro e pagar mais caro do que admitir que a ajuda do Governo Federal seria útil. E assim, a educação básica da Capital segue à mercê de uma gestão que prefere propaganda a parcerias, vaidade a eficiência, teimosia a bom senso.
Enquanto crianças esperam por escolas prontas, a prefeita parece mais preocupada com a foto de entrega da obra do que com a entrega em si. E Campo Grande segue sendo administrada como se fosse um eterno palanque, onde quem paga a conta é sempre quem mais precisa.
No fim das contas, não é apenas a verba federal que foi rejeitada. O que Adriane dispensou, de fato, foi a chance de governar com responsabilidade. Porque administrar com recursos próprios, em meio a uma crise fabricada por má gestão, virou apenas mais uma forma de esconder a incompetência por trás de um discurso pseudo-autônomo que já não engana mais ninguém.