
A Operação Spotless, deflagrada pelo Gaeco e pelo Gecoc, jogou luz sobre a velha corrupção em Mato Grosso do Sul, com fraude em licitações, contratos sob medida e prefeitos que tratam o dinheiro público como extensão da conta bancária pessoal. O protagonista da vez foi o prefeito de Terenos, Henrique Budke (PSDB), preso sob acusação de chefiar o esquema.
Segundo a investigação, a Tecnika Construção e Locação de Equipamentos LTDA, uma empreiteira com contratos que somam R$ 1,5 milhão, foi a escolhida para pavimentar justamente o bairro onde Henrique Budke mora. Uma coincidência tão escancarada que chega a insultar a inteligência alheia. Proposta de R$ 321 mil para asfaltar a rua da casa do prefeito, com diferença de apenas 0,7% para os concorrentes. Até a encenação da “disputa” parece mal ensaiada.
No mesmo pacote, a Tecnika também levou R$ 1,1 milhão para recapeamento e sinalização viária, em edital de R$ 2,4 milhões. O milagre da matemática foi oferecer quase metade do preço e ainda assim abocanhar o contrato. Claro, com licitação feita sob medida e servidor público “colaborando” para atestar serviços e acelerar pagamentos. O esquema já passa dos R$ 15 milhões em fraudes.
E aí surge a pergunta inevitável: será que essa farra acontece só no interior? Será mesmo que Campo Grande é um oásis de lisura, onde contratos públicos não servem a interesses privados? Porque, se a investigação for ampliada para a capital, vai faltar cadeira para tanto investigado. Os corredores do Paço Municipal não dariam conta de acomodar todos os nomes envolvidos.
A ironia maior é que operações como Spotless têm nome em inglês para parecer modernas, mas lidam com um roteiro que já conhecemos de cor. São empresários que fingem competir, servidores que fingem fiscalizar e prefeitos que fingem governar, enquanto na prática administram esquemas de enriquecimento às custas da população.
Campo Grande, com contratos milionários em saúde, educação e obras públicas, segue ilesa, ao menos até agora. Mas basta olhar o histórico de empresas que orbitam a prefeitura para perceber que a capital tem potencial de sobra para protagonizar um capítulo ainda mais escandaloso que o de Terenos.
A própria lógica do poder mostra isso. Se um município pequeno consegue fraudar milhões com licitações fajutas, imagine o tamanho do rombo em uma cidade como Campo Grande, onde os contratos são dezenas de vezes maiores e as fiscalizações, convenientemente “flexíveis”.
O caso de Henrique Budke só confirma a regra de editais moldados, simulações de concorrência e propinas distribuídas como parte do cronograma da obra. Nada de novo. O que falta é coragem institucional para olhar para a capital com a mesma lupa aplicada nos pequenos municípios.
Por enquanto, Campo Grande assiste de camarote, como se estivesse acima de qualquer suspeita. Mas a paciência do cidadão tem limite e a pressão por
investigações tende a aumentar. Afinal, por que só prefeitos de cidade pequena são algemados, enquanto os grandes continuam blindados?
Se o Gaeco e o Gecoc resolverem puxar o fio até Campo Grande, talvez descubram que o novelo é maior do que se imagina. E, nesse dia, será preciso mais do que cadeiras, será necessário reservar auditórios inteiros para acomodar o desfile de investigados.