
A deflagração da Operação Apagar das Luzes pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul expôs mais do que suspeitas de superfaturamento em contratos de iluminação pública em Campo Grande. Escancarou, mais uma vez, a insistência da gestão municipal em terceirizar serviços essenciais a grupos empresariais que orbitam o poder político local, enquanto empresas com histórico sólido acabam jogadas no mesmo balaio de suspeitas.
Embora o foco inicial das buscas tenha recaído sobre a Construtora B&C Ltda., vencedora de licitação de R$ 11,1 milhões para troca de lâmpadas de postes, os próprios desdobramentos da investigação apontam para um problema estrutural muito mais profundo. O centro da engrenagem não parece estar em quem executa o serviço, mas em quem sempre aparece nos bastidores dos grandes contratos da prefeitura.
A B&C, vale destacar, jamais teve sua trajetória marcada por escândalos, trocas de CNPJ, mudanças oportunistas de razão social ou artifícios comuns a empresas de ocasião. Atua há anos no mercado com o mesmo nome, o mesmo cadastro e a mesma linha de conduta, pautada por profissionalismo e cumprimento rigoroso de contratos, o que torna, no mínimo, curioso vê-la colocada como protagonista de um enredo que cheira a repetição política.
Já a JLC, por outro lado, surge como uma velhaconhecida dos corredores do poder municipal. Oficialmente, trata-se de mais uma empresa contratada. Extraoficialmente, porém, seu entorno empresarial é marcado por uma sociedade velada, que não aparece no papel, mas que há tempos desperta comentários nos bastidores pela proximidade com a família Lopes.
O empresário conhecido como Polaco, apontado como figura central por trás da JLC, mantém ligação direta com o deputado estadual Lídio Lopes, marido da prefeita Adriane Lopes. Não se trata de mera coincidência administrativa, mas de uma recorrência que se repete em diferentes contratos, aditivos e renovações, sempre sob o guarda-chuva da atual gestão.
As investigações conduzidas pelo Gecoc indicam fraudes reiteradas em processos licitatórios e contratos firmados em 2024, com aditivos que inflaram valores e resultaram em superfaturamento superior a R$ 62 milhões. Um rombo que não se constrói sem método, sem complacência e, sobretudo, sem relações bem alinhadas entre empresários e agentes públicos.
O simbolismo do nome da operação não poderia ser mais adequado. Apagar as luzes não se limita às lâmpadas dos postes, mas à transparência da administração pública, que mantém a população no escuro sobre quem realmente lucra com contratos milionários bancados pelo dinheiro do povo.
Equipes do Ministério Público cumpriram mandados de busca e apreensão em Campo Grande e também em Santa Catarina e, apesar de o próprio MPMS ter informado que a investigação recai sobre contratos firmados em 2024, o secretário municipal de Obras, Marcelo Miglioli, apresentou versão distinta ao afirmar que os alvos seriam contratos de 2021, celebrados ainda na gestão do ex-prefeito Marquinhos Trad, criando uma divergência pública de narrativas sobre o período e o alcance das apurações.
No fim das contas, a Operação Apagar das Luzes reforça uma percepção cada vez mais difícil de ignorar. Em Campo Grande, não é a primeira vez que empresas com trajetória discreta acabam expostas, enquanto grupos com conexões políticas seguem transitando livremente entre licitações, aditivos e contratos milionários. A diferença é que, desta vez, o foco das investigações começa a iluminar exatamente onde sempre houve sombra demais.