Nota zero comprova o apagão da transparência em Campo Grande

Campo Grande acaba de ser carimbada com um rótulo que nenhuma gestão séria gostaria de ostentar. A capital foi reprovada com nota zero em transparência sobre salários de servidores, segundo levantamento da Transparência Brasil divulgado em abril de 2026. O resultado não é apenas ruim, é constrangedor e revela um problema estrutural que vai muito além de um portal mal alimentado.

O índice analisou mais de cinquenta entes públicos entre estados e capitais e colocou Campo Grande no pior patamar possível. Não se trata de uma avaliação subjetiva ou política, mas de critérios técnicos claros como facilidade de acesso e qualidade das informações. Ainda assim, a capital sul-mato-grossense conseguiu falhar em todos.

O relatório aponta um cenário quase inacreditável. Não foi possível obter contracheques completos nem pelo portal oficial nem por solicitações baseadas na Lei de Acesso à Informação. Em outras palavras, o cidadão não consegue saber quanto e como o dinheiro público está sendo pago a quem deveria servi-lo.

E o problema não é ausência de dados, mas uma espécie de maquiagem digital que simula transparência sem entregá-la. Arquivos até existem, mas sem informações essenciais como salários, benefícios e descontos. Documentos que não informam nada servem apenas como cortina de fumaça e foram corretamente considerados inválidos na avaliação.

Como se não bastasse, o sistema ainda impõe barreiras técnicas que dificultam o acesso em larga escala. O bloqueio de ferramentas automatizadas, prática comum em análises de dados públicos, transforma o que deveria ser simples em um verdadeiro labirinto digital. Transparência que precisa ser decifrada deixa de ser transparência, não é mesmo?

Campo Grande não está sozinha nesse vexame, mas isso não serve de consolo. A capital figura ao lado de cidades como Belém, Macapá e Natal entre as piores do país. Todas marcadas pela mesma falha básica que é negar ao cidadão o direito de saber como o dinheiro público é utilizado.

O mais grave é que a transparência de remunerações não é um favor da administração pública, mas um dever consolidado inclusive por decisões do Supremo Tribunal Federal. A divulgação nominal de salários é considerada legítima justamente para permitir controle social. Ignorar isso é ignorar a própria Constituição.

Enquanto isso, outras capitais mostram que o caminho é possível. Vitória aparece como referência com alto índice de transparência, provando que não se trata de falta de tecnologia ou de capacidade técnica. Trata-se de vontade política e compromisso com o cidadão.

O relatório também revela um padrão preocupante que vai além dos dados ocultos. Muitos entes públicos simplesmente ignoram ou negam pedidos formais de informação. Em Campo Grande, a faltade resposta reforça a percepção de uma gestão que se fecha quando deveria se abrir à fiscalização.

Publicar contracheques completos, em formato acessível e atualizado, é o mínimo esperado de qualquer administração que respeita o contribuinte. Enquanto isso não acontecer, a nota zero continuará sendo mais do que um número, será o retrato fiel de uma gestão que prefere esconder do que explicar.

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