
No Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul, a matemática do absurdo é simples: quanto mais investigado, maior o holerite. Waldir Neves, conselheiro que já foi alvo de três operações da Polícia Federal, voltou ao cargo com pompa e um reajuste digno de delírio: 93% de aumento. Em junho, recebeu R$ 112,5 mil, o equivalente a 74 salários mínimos, valor que um trabalhador comum só veria após seis anos de suor ininterrupto. O detalhe irônico? Ele está sentado no banco dos réus em duas ações penais no STJ.
A volta triunfal de Waldir só foi possível porque Alexandre de Moraes, no Supremo, suspendeu o afastamento determinado pelo ministro Francisco Falcão, do STJ. O motivo é a “demora” em julgar as denúncias. O efeito prático foi devolver ao conselheiro investigado a chave do cofre e o crachá de luxo, com direito a todos os penduricalhos possíveis.
Quem achou isso um escândalo foi a própria subprocuradora-geral da República, Luiza Cristina Fonseca Frischeisen. Ela lembrou que o TCE-MS agora opera com dois conselheiros sob gravíssimas suspeitas de integrar uma organização criminosa para fraudar licitações e desviar recursos públicos. Mas, em vez de crise institucional, parece que na Corte fiscal a regra é que escândalo nenhum derruba supersalário.
Até abril, quando ainda estava afastado, Waldir “sobrevivia” com R$ 58 mil mensais, quantia já escandalosa, mas que soava modesta perto da bolada que viria. Ao reassumir, ganhou de volta o direito integral às “verbas indenizatórias”, e, em maio, faturou R$ 87 mil por apenas 16 dias de trabalho. Dinheiro fácil, sem desconto, porque, afinal, o que é verba indenizatória senão o paraíso fiscal dos privilegiados?
O mês seguinte coroou a festa com mais de R$ 112 mil depositados na conta, livre de constrangimentos, livre de pudores. Enquanto isso, o cidadão comum vê seu contracheque engolido pelo Imposto de Renda e pela contribuição previdenciária. Mas no TCE, quanto mais suspeita pesa sobre os ombros de um conselheiro, mais leve fica o bolso dele.
E não é Waldir o único a desfilar no palco da ironia. Iran Coelho das Neves também voltou ao cargo e recebeu R$ 58 mil em junho. Já Ronaldo Chadid, outro conselheiro do TCE, afastado até 2026 e réu por lavagem de dinheiro, resolveu judicializar para não perder os vencimentos integrais. O homem não conseguiu justificar R$ 1,6 milhão em dinheiro vivo encontrados em sua casa e na de sua chefe de gabinete, mas luta bravamente para garantir cada centavo do salário público.
Enquanto isso, Osmar Jeronymo, também afastado, vem recebendo o “módico” valor de R$ 58,1 mil por mês. Todos na mesma ciranda: investigados, afastados, processados, mas com o contracheque intacto ou quase intacto. Na prática, a “pena” máxima aplicada a um conselheiro do TCE-MS é viver com R$ 58 mil mensais.
O contraste com a realidade do trabalhador brasileiro é obsceno. O cidadão comum precisa encarar fila em hospital, transporte público lotado e salário mínimo congelado na sobrevivência. Já os conselheiros, mesmo sob suspeita de crimes milionários, são premiados com cifras que beiram o deboche.
O TCE, que deveria ser o guardião das contas públicas, virou ele próprio a fábula mais cara do Estado. E cada novo escândalo parece apenas reafirmar a máxima de que em Mato Grosso do Sul, o crime não só compensa, como rende supersalários e vida de marajá.