Minha Casa, Território do Caos: Um Grito de Socorro do Bairro Alves Pereira

Entrar na minha própria casa no Bairro Alves Pereira, em Campo Grande, tornou-se um exercício diário de constatação do abandono. O forro, que já refiz mais de uma vez, está novamente no chão, em pedaços. Os buracos na parede denunciam por onde a fiação elétrica, fruto de tanto suor e investimento, foi arrancada pela enésima vez. O que antes era um lar, hoje é o esqueleto de um imóvel violado repetidamente, um retrato fiel e doloroso do que a ausência de segurança pública é capaz de fazer com a vida e o patrimônio de um cidadão.

Minha luta contra a criminalidade em meu próprio imóvel parece uma batalha inglória e sem fim. Tudo começou com um furto que levou toda a fiação da casa e destruiu o forro. Com muito esforço, refiz toda a parte elétrica. Pouco tempo depois, o alvo passou a ser o padrão de energia: furtaram os fios do relógio mais de cinco vezes. Como resposta, mudei o padrão de lugar e o reforcei com uma grade de ferro, na esperança de inibir os ladrões. Não adiantou.

Decidida a não desistir, investi novamente. Arrumei o telhado, o forro, refiz a parte elétrica mais uma vez e consegui alugar a casa. A paz, no entanto, durou pouco. Os inquilinos, assustados com a insegurança do bairro, se mudaram. E então, no breve intervalo antes que eu pudesse encontrar outra pessoa, o pesadelo recomeçou, com uma força ainda mais devastadora. Invadiram o imóvel e levaram tudo de novo. Estragaram o telhado, arrancaram os fios do ar condicionado, derrubaram todo o forro que eu havia acabado de consertar e, claro, levaram cada centímetro de fiação. Para garantir o acesso, chegaram ao cúmulo de arrancar a concertina que eu havia instalado sobre o muro, que também já tinha sido levantado. Minha casa virou um cenário de caos. As invasões se tornaram diárias.

Diante desse cenário, o que se espera é o amparo da polícia. Mas o que encontrei foi o descaso. Em uma das ligações, após constatar mais uma invasão, ouvi de um atendente que, por ser um “fato consumado”, eles não poderiam ir até o local. Este final de semana, uma vizinha corajosa viu um criminoso dentro do meu quintal e ligou imediatamente para a polícia. A resposta que ela recebeu foi ainda mais assustadora: disseram que estavam “atendendo somente emergências”. Eu me pergunto, e pergunto às autoridades: um crime em andamento, uma invasão de propriedade, não é uma emergência? O que precisa acontecer para que a presença do Estado se faça sentir no Alves Pereira?

Meu caso, infelizmente, não é isolado. É um sintoma da doença que tomou conta do nosso bairro. A população de usuários de drogas cresce a olhos vistos; são como zumbis caminhando por toda a vila, dia e noite, em busca de qualquer objeto que possa ser trocado por mais uma pedra de crack. Os furtos se multiplicam. Só na minha rua, vários vizinhos já tiveram as fiações de seus aparelhos de ar condicionado furtadas. Vivemos em um estado de alerta constante, de medo e, acima de tudo, de completa impotência.

Minha casa no Alves Pereira não é mais minha. Ela pertence ao descaso, aos criminosos que agem livremente e à certeza da impunidade. Nós, moradores, pagamos nossos impostos em dia. Pagamos por uma segurança que não temos, por uma paz que nos foi roubada. Até quando seremos reféns dentro de nossos próprios bairros?

Este não é apenas o meu desabafo. É um grito de socorro de uma comunidade inteira que se sente esquecida. Exigimos uma resposta. Exigimos ação da Secretaria de Segurança Pública, da Polícia Militar e da Prefeitura de Campo Grande. Não queremos mais estatísticas vazias ou promessas vãs. Queremos nosso bairro de volta. Queremos nossa paz de volta. Antes que a única coisa que nos reste seja o eco do nosso abandono.

Val Reis, Jornalista.
Proprietária de uma casa no bairro Alves Pereira há mais de 15 anos.

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