
A crise da saúde pública em Campo Grande ganhou contornos ainda mais revoltantes com a revelação de que uma empresa ligada a um político condenado segue inserida na cadeia de fornecimento de um contrato milionário. Enquanto unidades de saúde enfrentam falta de dipirona e outros produtos básicos, além de equipes incompletas, o dinheiro público continua fluindo com regularidade para empresas envolvidas em um cenário que mistura descaso, omissão e suspeitas graves.
No centro desse escândalo está a ProduservServiços, contratada pela prefeitura para cuidar da limpeza e higienização das unidades de saúde. O contrato, que deveria garantir condições mínimas de funcionamento em locais sensíveis, se transformou em símbolo de abandono. Mesmo com denúncias robustas, a empresa segue recebendo pagamentos sem atraso, em um contraste que revolta profissionais da saúde e usuários do sistema.
O relatório do Conselho Municipal de Saúde, coordenado por Jader Vasconcelos, é contundente ao expor a precariedade. A ausência de 83 funcionários, prevista em contrato, gerou um prejuízo estimado em R$ 3,2 milhões. Trata-se de um rombo que impacta diretamente a qualidade do atendimento e coloca em risco a saúde da população.
A situação dentro das unidades é descrita como alarmante. Falta de papel higiênico, sabonete líquido, álcool e até sacos de lixo se tornou rotina. Equipamentos essenciais como enceradeiras e máquinas de limpeza praticamente não aparecem. Os pisos encardidos e a sujeira acumulada revelam um cenário incompatível com qualquer padrão mínimo exigido para ambientes de saúde.
Mesmo diante desse quadro, os pagamentos seguem sendo realizados com uma pontualidade que chama atenção. A gestão da prefeita Adriane Lopes é acusada de atrasar repasses a diversos fornecedores, mas mantém rigor absoluto quando se trata da Produserv. Essa seletividade levanta questionamentos inevitáveis sobre prioridades e critérios adotados pela administração municipal.
O escândalo se agrava com a presença da empresa Clarear Comercial Ltda na cadeia de fornecimento. A empresa pertence ao ex-vereador José Airton Saraiva, condenado por improbidade administrativa na Operação Coffee Break. Mesmo com decisão judicial que suspendeu seus direitos políticos por oito anos, impôs indenização de R$ 150 mil e o proibiu de contratar com o poder público, seu nome reaparece ligado a contratos que orbitam a prefeitura.
Documentos fiscais comprovam que a empresa de Saraiva forneceu itens básicos para a Produserv, incluindo detergente, sabonete líquido, sacos de lixo e até papel higiênico de qualidade inferior ao previsto em contrato. Enquanto o edital exigia papel folha dupla, o que chegou às unidades foi papel simples, evidenciando total desrespeito com o dinheiro público e com a dignidade dos usuários.
A condenação de Airton Saraiva foi proferida pelo juiz Ariovaldo Nantes Corrêa e está diretamente ligada ao episódio que resultou na cassação do então prefeito Alcide Bernal em 2014. O passado do ex-vereador não é um detalhe irrelevante. Ele é parte essencial de um histórico que deveria, no mínimo, acender alertas dentro da gestão pública.
O volume de recursos envolvidos é expressivo. O Conselho Municipal de Saúde aponta que a Produserv já recebeu cerca de R$ 36,7 milhões. Um valor que, diante da realidade encontrada nos postos, levanta uma pergunta inevitável sobre onde, de fato, esse dinheiro está sendo aplicado.
Como sempre, questionada sobre o relatório e sobre a qualidade do serviço prestado, a gestão de Adriane Lopes não apresentou respostas. A falta de explicações reforça a sensação de que a população foi deixada à própria sorte em um sistema que deveria protegê-la.
O caso escancara uma engrenagem perversa onde contratos milionários convivem com serviços precários e figuras condenadas continuam usufruindo do dinheiro público. Campo Grande assiste a um retrato cruel de abandono, onde a sujeira nas unidades de saúde é apenas a face visível de um problema muito maior que parece não ter solução.