Máfia sangrou a Santa Casa

Enquanto pacientes morriam em meio à falta de estrutura, medicamentos e materiais, a cúpula da Santa Casa de Campo Grande é acusada de transformar o maior hospital de Mato Grosso do Sul em território de negócios privados. Médicos trabalharam até cinco meses sem receber, equipes pediram o encerramento de contratos e profissionais da enfermagem cruzaram os braços diante do atraso salarial. Dentro dos gabinetes, porém, a investigação aponta que dinheiro não faltava. Faltava vergonha.

Segundo o Ministério Público, a gestão comandada por Alir Terra Lima permitiu a montagem de uma engrenagem empresarial destinada a retirar recursos da instituição e da operadora Santa Casa Saúde. A Operação Antidotum levou à prisão preventiva AlirTerra Lima, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, Rinaldo HakmeRomano, Monique Gregório de Oliveira e o empresário Maurício Aparecido Benites. A investigação apura prejuízo inicialmente calculado em R$ 4,9 milhões apenas em 2025, e os elementos divulgados descrevem aquilo que, em linguagem popular, parece uma verdadeira quadrilha instalada no coração do hospital.

Uma das frentes do esquema envolvia um contrato de R$ 5,4 milhões para digitalização de prontuários. Conforme a investigação, foram pagos R$ 1,4 milhão no primeiro ano sem a correspondente prestação dos serviços. Era dinheiro sendo retirado de uma instituição que não tinha recursos para manter estoques, pagar fornecedores e garantir a continuidade de atendimentos essenciais. Cada real desviado poderia significar um antibiótico, um material cirúrgico ou uma chance de sobrevivência negada a alguém.

A outra frente era ainda mais repugnante. Empresas formalmente distintas, mas submetidas ao mesmo núcleo de controle, recebiam milhões da Santa Casa Saúde. Algumas não possuíam funcionários. Sete chegaram a funcionar no mesmo endereço, uma sala comercial pertencente a Alir Terra. Somente em 2025, essas empresas receberam aproximadamente R$ 9,6 milhões, causando prejuízo mínimo estimado em R$ 3,5 milhões. A fragmentação em vários CNPJs, segundo os promotores, servia para multiplicar contratos, diversificar pagamentos e esconder que tudo fazia parte de uma falcatrua perversa.

O dinheiro percorria uma rota cuidadosamente construída. Saía da Santa Casa, passava por empresas ligadas entre si, chegava a funcionários, empresários e servidores públicos e terminava convertido em espécie. Os saques eram repetidos em valores de R$ 49.999, logo abaixo do limite que poderia despertar alertas automáticos mais rigorosos. Para o Gaeco, a repetição demonstra fracionamento deliberado destinado a dificultar o rastreamento pelo sistema financeiro.

Valdenir Rogério Cardoso, funcionário que recebia salário mensal de R$ 2,4 mil, sacou R$ 675 mil em dez meses. A servidora estadual Tatiana Rodrigues de Souza movimentou mais de R$ 575 mil. Geraldo Afonso de Andrade Júnior recebeu e sacou quase R$ 956 mil. Já o empresário Alípio Carlos de Brito teria movimentado mais de R$ 2,1 milhões. Eram dezenas de operações em valores semelhantes, repetidas por diferentes pessoas e contas. A cifra mudava de mãos, mas o método permanecia o mesmo. Tirar muito, sacar aos poucos e tentar apagar o rastro.

Enquanto essa máquina de dinheiro funcionava, a direção da Santa Casa aparecia em público pedindo socorro. Alertava para o risco de faltar medicamento, reduzir cirurgias e limitar a entrada de novos pacientes. O hospital enfrentava estoques baixos, serviços interrompidos e judicialização para que o atendimento pelo SUS fosse restabelecido. É difícil imaginar cinismo maior. A mesma instituição que dizia não ter recursos teria alimentado contratos milionários, empresas sem estrutura e pagamentos escondidos dos próprios órgãos de fiscalização.

A ousadia descrita na investigação não parava nos saques. Contratos, pagamentos, notas fiscais e prestações de contas teriam sido sistematicamente ocultados do Conselho Fiscal, da Controladoria Geral do Estado e até da Justiça. Uma determinação judicial para apresentação de documentos teria sido ignorada. Quando a ligação entre as empresas e o imóvel de Alir veio à tona, sete pessoas jurídicas teriam mudado de endereço. Não parece desorganização. Parece método. Não parece incompetência. Parece uma estrutura desenhada para esconder a sangria.

A prisão de Alir Terra não rompeu completamente o círculo de poder. Heitor Scheibeler, integrante da mesma administração e do Conselho comandado por ela, assumiu interinamente a presidência. Conforme denúncia recebida pelo Jornal O Consumidor News, existe o temor de que a substituição represente apenas a continuidade do mesmo grupo, com outro rosto na cadeira principal. A denúncia também aponta como gravíssimo o elogio feito por Heitor à gestão de Alir. Se confirmado, o gesto mostra que a raposa apenas entregou a chave do galinheiro para outra raposa. 

A Santa Casa não precisa de elogios indecentes a uma gestão mergulhada na roubalheira. Precisa de intervenção séria, auditoria independente, afastamento de todos os integrantes comprometidos com o grupo investigado, rastreamento de cada centavo e devolução integral dos valores desviados. Se a investigação confirmar o que já apareceu, não estaremos diante de simples maus gestores. Estaremos diante de uma organização criminosa cruel que saqueou um hospital enquanto doentes, médicos e trabalhadores pagavam a conta com sofrimento, abandono e vidas.

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