
Na tribuna da Câmara Municipal de Campo Grande, o desabafo de uma mãe atípica ecoou como um grito coletivo. Não era apenas um relato isolado. Era a síntese de um drama que se repete todos os dias nos corredores dos postos de saúde, nas filas intermináveis do CEM e nos telefonemas desesperados em busca de medicação e atendimento. O discurso, recheado de exemplos concretos, rasgou o véu do espetáculo montado para maquiar uma realidade cruel.
Enquanto vereadores se aplaudem em sessões coreografadas, mães vivem o caos. A população não é plateia, mas é tratada como figurante de um teatro mal ensaiado, onde o roteiro é a omissão e o cenário é a precariedade. Mães que enterram filhos, que veem amputações evitáveis se tornarem rotina e que colecionam laudos médicos alertando para riscos de morte sem que nada seja feito.
A denúncia das fraldas de péssima qualidade é símbolo dessa tragédia. Produtos que deveriam garantir dignidade transformam-se em mais uma ferida para crianças e adolescentes já fragilizados. Não há estoque de medicamentos psiquiátricos básicos. Não há cuidado com a saúde mental das mães que sustentam, à base de força e fé, o cotidiano dos seus filhos.
No discurso, a comparação é certeira. Ninguém compraria um carro de luxo e aceitaria receber um carro sucateado. Então por que gestores públicos aceitam contratos milionários sem fiscalização? Por que empresas vencedoras de licitação não entregam o que foi comprado e seguem impunes? O que se vê é um sistema onde ninguém assume responsabilidade e todos fingem normalidade.
As viaturas do Samu paradas enquanto mães não conseguem socorro ilustram o absurdo. São imagens que falam mais alto do que qualquer prestação de contas apresentada em slides coloridos. A população precisa de ação, não de powerpoints.
As mães atípicas, que deveriam ser amparadas pelo Estado, sustentam sozinhas a luta diária. Endividam-se para garantir planos de saúde e dietas especiais, substituindo o que deveria ser obrigação do poder público. O sofrimento relatado não é exceção. É regra.
Esse cenário revela mais do que descaso. É um projeto de invisibilização. A sessão da Câmara, com discursos elogiosos à prefeitura, se torna um palco de ilusionismo. Enquanto isso, crianças com deficiência são negligenciadas, expostas ao risco e, em casos extremos, à morte.
A revolta das mães é legítima. Elas não querem favores. Querem direitos. Querem o cumprimento de decisões judiciais, querem fraldas que não machuquem, medicamentos disponíveis, cirurgias realizadas em tempo hábil e ambulâncias que funcionem. Querem respeito.
O grito dessa mãe representa centenas, talvez milhares de mulheres que vivem o mesmo drama. Elas não precisam de flores no Dia das Mães, nem de
homenagens protocolares na Câmara. Precisam de políticas públicas efetivas e de gestores que honrem o cargo que ocupam.
As mães atípicas conhecem seus direitos. Sabem que a saúde é dever do Estado e não caridade. Sabem que a judicialização é um sintoma da ineficiência administrativa, não uma solução. Sabem também que discursos não alimentam nem medicam seus filhos.
Defender essas mães é defender o mínimo de humanidade. É denunciar que o Estado brasileiro, em suas diversas esferas, tem falhado repetidamente com elas. E que cada omissão custa caro, não apenas financeiramente, mas em vidas.
Que o grito ecoado na Câmara não seja mais uma fala perdida no vazio. Que seja o início de uma cobrança séria, com resultados concretos. Que vereadores e gestores saiam do palco, desçam do camarote e encarem a realidade no chão das unidades de saúde. Porque mães atípicas não pedem aplausos. Exigem respeito e ação imediata.